Juventude e as Artes
da Cidadania:
práticas criativas,
cultura participativa
e activismo

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Destaq’Art – Artes da cidadania em destaque

Esta é uma rubrica semanal do ArtCitizenship em que damos visibilidade ao trabalho criativo de autoras e autores que têm colaborado de forma mais próxima connosco. O projecto criativo é destacado na medida em que corresponde a uma forma de exercício de cidadania e de participação política em torno de certas causas sociais.



#5 – Inês Tartaruga Água

ToxiCity – Ruptural performance/collective action for compost-humans

Inês Tartaruga Água (Válega, 1994) apresenta-se como artista desde os 5 anos, experimenta a academia na especialização de pintura (2012) e obtém grau de mestre em escultura (2019) pela Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto. Artista multidisciplinar, centrada nas questões da ecologia profunda e da biopolítica, exploradora sonora e adepta da filosofia DIY bem como de práticas colaborativas e participativas em espaço público. Participa em exposições colectivas desde 2013, com destaque para a “XIII Bienal Internacional de Cerâmica Artística” (Aveiro, 2017), “Убежище / Suoja / Shelter Festival – Laboratory” (Helsínquia, 2019), «48 часов Новосибирск» (Sibéria, 2019), ou “Soundscapes” (Bahrain, 2019), e tem a sua primeira residência artística individual “Méhtēr: Matéria, Forma e Transformação” no Museu Júlio Dinis em Ovar (2018). Funda com Xavier Paes a editora DERMA, o colectivo REFLUXO e DIES LEXIC, com estreia internacional em Tuí, (2016), e um ano depois em Paris, Haia e Amsterdão. Integra o coletivo artístico internacional “Mycelium” (RU, DEN, IT, EUA e PT) e “MOSCXS” com sede no Porto.

https://cargocollective.com/inestartarugaagua


#4 – Lolo Arziki

Lolo Arziki é jovem cineasta, nasceu em Cabo Verde e cresceu em Portugal. Desenvolve o seu trabalho tratando temas como a sexualidade, a negritude, a inclusão social e a experimentação estética.

Relatos de uma rapariga nada púdica – https://vimeo.com/178958765

Apneia (vídeo art) – https://youtu.be/xjVlxstVsk4


#3 – Samantha Muleca

Muleca XIII é rimadora, compositora e intérprete além de ser pintora e educadora. Natural do Rio de Janeiro, começou sua trajetória no rap e no graffiti em 2006, e desde então é praticante dessas vertentes e ativa em projetos socioculturais através da arteeducação. Há seis anos na Europa, a MC, que costuma atuar em concertos, já dividiu palco com grandes nomes da rima e participou em festivais em Portugal, França e Espanha. Sua marca registrada é a métrica acelerada (fastflow) de alta profundidade sem pecar na qualidade melódica, e sua especialidade é a rima de improviso (freestyle). Integra o coletivo de artistas Comando S.E.L.V.A cuja sigla significa “segue na estrada livre e voa anonimamente”, seu grande lema de vida.

https://www.instagram.com/muleca13/


#2 – kali

in Fanzine Gato

“Entre um pássaro e um macaco, surgem vários animais pelos quais me fui metamorfoseando. Fui mutando na arte e na pedagogia, acreditando sempre que a descoberta parte de uma expressão. E fui chegando, procurando um meio híbrido, pandrogeno em constante transição.”
Música: Pássaro Macaco – Loop Station + electrónica+trompete e voz \ Panelas Depressão – baterista \ Decibélicas – trompete + electrónica \ Orquestra de Sopros e Electrónica – trompete + electrónica
Artes plásticas: #casadasartesdoalgoz #fiadeira #cantodobaú
https://cargocollective.com/kalimacaco/Perfil-Profile

#1 – cataestrófica

A cataestrófica é criadora de seres antropomórficos nas horas livres, pensando a sociedade e o dia-a-dia, através de uma abordagem reivindicativa e humorística, procurando esmiuçar uma miscelânea de temáticas – desde o feminismo, ao veganismo e anticapitalismo.

https://www.instagram.com/cataestrofica/

Diagrafia #7 – Manif online GalpMustFall – 24abr20

Diagrafias

A ideia nas Diagrafias é fazer etnografia de um dia específico, sobre uma comemoração pública ou uma iniciativa privada, a situar no tempo e no espaço. O exercício baseia-se na observação etnográfica num só dia, sem possibilidade de continuar a exploração do mesmo tema noutra ocasião. O resultado formal deve ter um texto no qual se transcreve tudo o que se anotou no caderno, junto com gravações de som ambiente.

A transcrição das notas etnográficas quer-se o mais próximo possível do original, ou seja, com poucas correções formais e factuais. Um dos intuitos é apenas de revelar um olhar etnográfico sobre as ações sociais durante um dia, sem que haja comentários ou aprofundamentos analítico-teóricos. É a revelação da forma mais crua de observações etnográficas, deixando ao leitor a liberdade de interpretar, de querer analisar e questionar.

A nível do método e da forma, as Diagrafias estão próximas do que é feito em etnografia com “descrição densa” (Geertz, 1973), mas também dos documentários de Wiseman, Rouch ou Depardon, e da mais recente escrita da antropóloga Françoise Héritier (2012, 2017). O resultado não tem qualquer pretensão literária, embora nele se revele uma estética muito própria à escrita de notas curtas sobre interações sociais e sobre os contextos nas quais se realizam.

Esta sétima Diagrafia do projeto ArtCitizenship é sobre a manifestação digital contra a Galp, no dia 24 de abril 2020. Foi a primeira manifestação online em Portugal e teve por nome #GalpMustFall, iniciativa co-organizada pela Climáximo e a 2degrees artivism. Também para nós foi a primeira vez que fizemos uma observação etnográfica de algo que acontece exclusivamente no mundo da Web. São passos num método de investigação já bastante trabalhado em ciências sociais – a netnografia.

Estivemos frente aos ecrãs do computador e do telemóvel simultaneamente, mas fisicamente longe de todas as pessoas e situações observadas. Imensa coisa aconteceu. Os olhos e as mãos estiveram muito ocupados, numa ida e volta constante entre a plataforma da manifestação e os lives do Instagram. Havia mapas, icones, slogans, entrevistas, concertos, feeds, muitos imojis de manifestantes… Juntaram-se intervenientes de Moçambique, Cabo Verde, Guiné, Brasil…


Diagrafia #7

Sexta-feira, 24 de abril 2020

De manhã recebo um email no qual está escrito o seguinte:

Foi publicado um novo artigo no nosso site: Como manifestar-se “online”? | How to protest online? 

Hoje (24 de Abril), a partir das 15h00, vamos fazer a primeira manifestação online em Portugal.

Como outras manifestações na vida real, vamos ter um ponto de encontro (sede da Galp em Maputo, Moçambique), um ponto de passagem (surpresa!) e um destino final (também surpresa). Como outras manifestações, vamos ter música e intervenções. Mas, ao contrário às manifestações reais, todas as pessoas de todas as cidades podem participar na mesma manifestação e podemos marchar longas distâncias! 

Então, como é que se faz? Simples:

1) Abre no teu browser https://manif.app/ .

2) Faz zoom-in para o sítio onde queres estar. (para o ponto de encontro, podes simplesmente seguir este link.)

3) Escreve o teu grito onde diz “Slogan” acima.

4) Clica no “Manifest!”

5) Assim aparece o teu bonequinho de manifestante no mapa. Podes agarrá-lo e pô-lo onde quiseres.

6) Vamos marchar, das 15h até às 18h. Para os próximos passos, segue as contas de FacebookInstagram e Twitter do Climáximo.”

Esta manifestação online foi planeada por organizações activistas porque na tarde deste dia 24 de abril acontece a Assembleia Geral Anual dos Accionistas 2020 da Galp.

Há um cartaz feito para este evento:

Embarcado nesta nova aventura de manifestação digital decido estar pronto à hora certa.

15h00

Releio atentamente o email e sigo as indicações. Concentro-me no site da manif.app porque não tenho conta no Twitter. Também somos aconselhados a aceder às páginas Facebook e Instagram da manifestação. Decido ir ao site manif.app no meu computador e ao live do Instagram no meu telemóvel.

Depois de inscrever-me no manif.app e de escolher o slogan no meu cartaz digital, posiciono o meu ícone em forma de boneco caminhante no Terreiro do Paço.

Ligo-me ao Instagram live da 2degrees artivism, na qual estão Diogo Silva (2degrees) e Sinan Eden (Climáximo) em modo pergunta-resposta sobre a iniciativa. É a primeira deste género nas manifestações pelo clima em Portugal.

Falam em “dedos da ação”. Apontam para os dedos das mãos e explicam que cada dedo corresponde a uma ação que se vai realizar hoje: GalpMustFall Live; Compra de ações para estar na reunião de acionistas da Galp; twitterstorm; Manifestação online.

Sinan diz: “– Estamos a fazer uma coisa contra a qual lutámos, o ativismo online”. Debate-se o papel do ativismo online. Conclui-se que é fundamental ligar a outras formas de manifestação.

Movi o meu ícone de manifestante para Maputo, em Moçambique. Fomos aconselhados pelos intervenientes no InstaLive. No mapa, procuro um local onde posicionar o meu manifestante, perto dos outros.

“Somos 500 em maputo. E somos 3os no trend do Twitter em Lisboa”, diz Diogo Silva no InstaLive.

Acaba a entrevista com Sinan Eden, representante do Colectivo Climáximo, coorganizador desta manifestação digital.

Diogo Silva procura a primeira banda a introduzir à manif: os Bergalgo!

Problemas de qualidade, mas há muito humor entretanto. “– Virem a camara ao contrário!”; “– Aí estão eles? Estão a ver-nos?” Confusão. Falhas de contacto…. “– Quem quer falar para introduzir a música?”; “–Eu!” É uma banda solidária com o movimento, já tinham aceitado o convite anterior da Greve Climática.

O feed no Instagram começou calmo, mas já estão 70 pessoas.

15h25

Começa o concerto dos Bergalgo! São 3 músicos. Cordas, percussões e vozes. Letras subversivas. Muitos cortes no som.

“– Palmas de um só”, diz Diogo Silva, já que é o único que podemos ouvir no live, para além da banda.

“Tou a abrir para moche”, escreveu alguém no feed do Instagram.

Conversa-se sobre a banda, sobre a arte, e sobre ser artista em Portugal. Dizem que há demasiada competitividade entre artistas. Faltam coletivos. Apelo a juntar as pessoas.

Mudo de interface e vou espreitar os números e os slogans dos manifestantes.

Em Maputo estão 126 online.

Eis algumas das palavras de ordem que leio nos cartazes dos manifestantes virtuais:

Cai Galp e não te levantes!

Petróleo já era! Galp, 2ª vaga do colonialismo. Il n’y a pas de planete B, Galp doit tomber!

E cai oh Gal e cai oh Gal olé!

Cats against Galp!

Justiça climática e abaixo o neo-colonialismo!

Extractivism must end! 

15h46

Acaba o primeiro concerto.

Em direto no live do Instagram, Diogo Silva tenta aceder à Justiça Ambiental de Moçambique. “– Não dá? Não está acessível? Espero que estejam bem?”; “– Então vou pedir à colega Alice para que me ajude. Vou fazer isto em direto.”

Explicação por Diogo Silva do que é a Justiça Ambiental. Fazem parte da rede Friends of the earth.

Diogo continua à espera do request. “– A ver se os aceito. Se não der, mandamos abaixo e depois mandamos acima!” Risos.

15h49

O live cortou… e voltou.

Somos informados que o # no Twitter está em 2º lugar em Lisboa e em e 4º lugar a nível nacional. “– #GalpMustFall estamos muito bem!”

O nosso host avisa que: “– Por volta das 16h vamos ter de passar de Maputo a Sines.”

Entretanto chegou o representante da Justiça Ambiental, diretos de Maputo. Falhas, mas estão aqui. Já se ouvem. “– Estamos em direto com Moçambique. Vive-se tudo em direto. Obrigado à Alice em modo assistente de produção”, diz o host.

Pergunta resposta. O que é a Justiça Ambiental? Estão juntos há mais de 20 anos. Fala-nos das realidades em Moçambique, nomeadamente da corrupção. Enquanto o interlocutor fala de Moçambique, Diogo Silva reage com as mãos, mas sem fazer barulho, como nas assembleias ao vivo (mãos no ar para simular palmas…)

16h00

Estão 31 pessoas no direto da @2degrees artivism.

146 manifestantes em Maputo.

Leio os comentários das pessoas sobre o que diz o representante da Justiça Ambiental, em direto no feed do InstaLive:

carolinabsacoto: obrigado pelo vosso trabalho;

joaohomemdopovo: Que inspiração

tiny_vclau: Wow

luis_nunesdasilva: Urge furar o cerco de silêncio em torno da Galp e seus negócios insustentáveis!

carolinasalgueiropereira:

Com a Justiça Ambiental de Maputo, conversa-se sobre o slogan da Galp, sobre a sua imagem green… mas qual a realidade da Galp?

Volto ao ecrã do computador, no qual posso ver o mapa mundial dos ativistas digitais. Eu estou a vermelho lá em baixo, em Maputo. Noto que há alguns manifestantes em pleno oceano Atlântico. Os slogans dos seus cartazes virtuais dizem:

meurs (morrendo)

je me noie (estou a afogar-me)

we are not in the BOAT

Foda-se a Galp.

16h09

Somos 155 em Maputo.

Há 75 em Portugal.

São 314 na Bélgica.

Acaba a entrevista ao representante de Justiça Ambiental.

O host pede para nos movermos até Sines.

16h14

O live no Instagram mudou. Diogo Silva, o host, pediu-nos para entrar no live de @GreveClimáticaEstudantil

Estamos em direto com a nova host, Andreia Galvão, que convidou o artista Moçambicano – TRKZ.

Dificuldade em manter a rede.

Sendo um live aberto a todos, há todo o tipo de comentários. Ex:  antonio_gil_de_almeida: voces sao mais vandalos que apoiantes de lenine.

Andreia Galvão começa a entrevista sobre como TRKZ entrou no mundo da arte. Quis ser cantor, dançarino, como forma de se expressar… e também como terapia… “– Salvou a minha vida!”

Discutem a situação ambiental na Província de Cabo Delgado (nordeste de Moçambique)… tem havido informação a circular desde setembro 2019.

Somos neste momento 108 em Portugal. São 350 na Bélgica.

Vamos passar para a parte musical. “– Diz às pessoas qual o teu arroba!” = @__trkz

Escuto o artista, mas há idas e voltas, mudanças de arrobas, mudanças de localização de manifs… problemas técnicos.

Estão 16 pessoas a ver o concerto.

16h37

No canto superior direito do écran de computador vejo que estão 628 pessoas a manifestar-se online na manif.app

TRKZ toca calimba e canta. Passa para a guitarra, tranquilamente.

Comentários no feed:

sobrio258: Mano espero apanhar um pouco de rap too

irayoeywa: Aquárioooooooooo 

sereialice_Está a ser lindo

sereialice_Mas vamos de ter de entrar agora de novo no insta @GreveClimaticaEstudantil para conseguirmos cumprir o programa. Quando este concerto maravilhoso acabar venham lá ter! 🙂

Ainda não acabou o concerto, mas no meu telemóvel vou para @GreveClimaticaEstudantil

A host explica a importância de ouvir artistas de países onde o colonialismo português acabou fisicamente mas continua economicamente.

Passamos para outra artísta: Nitry, rapper de Cabo Verde.

Nitry preparou um décor. Parece ter estrelas na parede e bola de luzes coloridas a circular.

Nitry é estudante. “– É preciso ter conhecimento”. Explica como os seus estudos a ajudam a ser melhor rapper.

Vamos ouvir o seu primeiro som!

Começa a batida… Rima em crioulo.

16h53

121 manifestantes em Portugal.

46 pessoas assistem ao live de Nitry. “– Antes de abrir a boca, tenta abrir a mente. Pessoal todo a seguir a pagina da Greve!”

No feed:

nellymana_

2degreesartivism: A dar TUDÓOOO

abelfrodrigues: alguém dê o mundo a ela

Discute-se a Galp em Cabo Verde. E como fazer a mudança sendo artísta. “– O artísta tem um poder nas mãos, proximidade com as pessoas”

644 manifestantes pelo mundo do manif.app

No feed:

alv_im: #DigitalStrike #DefendTheDefenders vamboraaa

Segunda música: inspirada numa mulher ativista, a Titina Silá, que lutou pela independência de Cabo Verde e da Guiné. “– Corre atrás dos teus sonhos sem olhares para trás”. “– Vou meter aqui um play”. Começa o rap.

No feed:

mynameisronny_Foi para isto que eu acordei hoje

efuru_moon: deus t ma mi, e se deus t ma mi ktm ngm na nha camin

pel_xkura:

clara_pestanalf:

48 pessoas a assistir ao live, muitas reações ao vivo.

Artísta responde: “– Obrigado ao pessoal que está a comentar. Uau. Verdes!!”

No computador, tiro o meu ícone de manifestante de Maputo e subo até Sines.

Volto a Nitry no Instalive do meu telemóvel.

“– Procuro um mundo mais sustentável”, diz Nitry.

Começa 3º tema: a dançar!

Enquanto faz o seu rap em creolo, Nitry também fala em português com mensagens de apoio aos ativistas.

No feed:

pestinha_varelah: Lebantaaa

smartie_4444: Obrigada Nitry!!

17h14

Somos convidados a sair do arroba da Greve Climática para voltar ao live de @2degreesartivism.

Estão 12 pessoas neste live. Espera-se um pouco. Convite enviado pelo host à @GreveClimática.

Novidades: somos informados que acabou a assembleia da Galp, “– Aprovaram tudo o que é distribuição de dividendos…”

Vamos ter mais uma artísta: Djucu, atriz e performer.

Somos informados que Inês Teles, membro da Climáximo, esteve na sede da Galp.

Estamos agora com Djucu, guineense que estudou no Teatro Experimental de Cascais.

27 pessoas no live.

“– Porque aceitaste o nosso convite?” “– Para evoluir!”, responde Djucu.

Vai haver uma performance.

Discute-se arte e de que forma pode servir nas lutas ativistas.

No feed:

balbinoedina: você merece tudo de bom milha querida Deus abençoe você

a_galvona: Bué bonito <3

fehbalbino: Grande atris e pessoa amooo

665 manifestantes pelo mundo, 186 dos quais estão visíveis, informa o computador no manif.app.

Falam sobre o que falta na Guiné, e a relação com as artes.

No feed: carlatudora:

17h32

Vamos até ao Brasil ter com o movimento 350brasil (valor correspondente ao limite planetário de carbono na atmosfera)

20 pessoas no live.

“– O que é a 350? Quando se forma?”…

Representante que está no live explica que trabalha com toda a América Latina.

Explicação de 3 conceitos chave do ativismo climático, dos quais – combustíveis fósseis. E qual o impacto da Galp no Brasil?

No feed: caioalencarrr: Massa o conhecimento

Perigos da exploração petrolífera da Galp nas costas do Brasil depois de ter sido leiloada pelo Presidente Lula da Silva.

17h54

Final da conversa, 21 pessoas no live.

Temos a presença virtual de Inês Teles, membro do Colectivo Climáximo, que esteve na Assembleia Geral Anual da Galp, em Lisboa. Diogo Silva pergunta: “– Tu que estiveste no “dedo de dentro” na assembleia (risos), o que aconteceu?

Estão 25 pessoas no live a ouvir o feedback da ativista. Espalhados pelo mundo, continuam a haver cerca de 650 manifestantes online.

18h07

Faz-se um WrapUp progressivo da manifestação virtual.

Final da manifestação. Decido deixar o meu ícone de manifestante durante mais algumas horas na plataforma manif.app que está aberta no meu computador. Os InstaLives terminam com um adeus coletivo. Sorrisos dos hosts e feed cheio de comentários.

É desligado o InstaLive da 2degrees artivism e assim termina oficialmente a manifestação #GalpMustFall.


Diagrafia #7

Manifestação online #GalpMustFall

Projeto ArtCitizenship

Alix Didier Sarrouy – CICS.NOVA

Abril2020

Diagrafia #6 – Companhia Hotel Europa – Lx, 15abr2020

Diagrafias

A ideia nas Diagrafias é fazer etnografia de um dia específico, sobre uma comemoração pública ou uma iniciativa privada, a situar no tempo e no espaço. O exercício baseia-se na observação etnográfica num só dia, sem possibilidade de continuar a exploração do mesmo tema noutra ocasião. O resultado formal deve ter um texto no qual se transcreve tudo o que se anotou no caderno, junto com gravações de som ambiente.

A transcrição das notas etnográficas quer-se o mais próximo possível do original, ou seja, com poucas correções formais e factuais. Um dos intuitos é apenas de revelar um olhar etnográfico sobre as ações sociais durante um dia, sem que haja comentários ou aprofundamentos analítico-teóricos. É a revelação da forma mais crua de observações etnográficas, deixando ao leitor a liberdade de interpretar, de querer analisar e questionar.

A nível do método e da forma, as Diagrafias estão próximas do que é feito em etnografia com “descrição densa” (Geertz, 1973), mas também dos documentários de Wiseman, Rouch ou Depardon, e da mais recente escrita da antropóloga Françoise Héritier (2012, 2017). O resultado não tem qualquer pretensão literária, embora nele se revele uma estética muito própria à escrita de notas curtas sobre interações sociais e sobre os contextos nas quais se realizam.

Esta sexta Diagrafia do projeto ArtCitizenship é sobre um ensaio da Companhia Hotel Europa, no Teatro Thalia, dia 15 de Abril 2020. Para as comemorações do 25 de Abril, e em pleno estado de emergência devido ao COVID-19, preparava-se um espectáculo sobre a luta contra o fascismo em tempos de ditadura portuguesa.

Propomos que durante a leitura da observação etnográfica oiça o som com auscultadores.


Diagrafia #6

(pre)texto

Esta diagrafia da companhia Hotel Europa em processo de criação e de ensaio é particular porque o espetáculo está ele próprio baseado em recolhas etnográficas. Consiste num vasto conjunto de entrevistas, com tempo e profundidade, feitas a pessoas que participaram na luta contra a ditadura em Portugal. São, na sua maioria, pessoas anónimas. Há histórias heroicas, a diferentes escalas, em vários domínios e múltiplas ocasiões. Há testemunhos da proximidade humana, da sua sensibilidade, do poder da coragem e da devoção. Há histórias com audácia, aquela que ficou no segredo do momento, que durou segundos, que consistiu num olhar, num sinal com a mão, num abraço proibido na calçada, ou num improviso instintivo que salva a pele.

Ao escutar o material destas entrevistas feitas por André Amálio, codiretor, encenador e intérprete da companhia Hotel Europa, apercebemo-nos que a arte da entrevista, da conversa, do estabelecimento de confiança, do deixar falar e saber ouvir, é conseguida de muitas formas, e que nós, cientistas sociais, temos a aprender com os artistas que dominam estas ferramentas à sua maneira.

Outro ponto de provocação consiste na forma como os artistas utilizam a matéria bruta e sensível das entrevistas, para depois transmitir o seu sumo a espectadores variados, por via dos palcos das artes do espetáculo. A comunicação, a transposição e a reprodução, como capacidades às quais o mundo académico não deveria escapar quando quer atingir públicos fora do seu círculo. O teatro documental de Hotel Europa consegue tudo isso, mediando a voz e o corpo dos entrevistados que ganharam confiança ou que sentiram a necessidade urgente de se exprimir sobre temas tão profundamente marcantes, mas por vezes refundidos. A importância do testemunho, aquele que se liberta do possível peso da memória, é fundamental, nomeadamente para os que não viveram em tempos de ditadura, de polícias secretas, de moral castradora, em 40 anos de confinamento físico e intelectual.


Quarta-feira, 15 de abril 2020

(clikar no play para ouvir o som ambiente enquanto lê o texto)

9h00 da manhã

Apanho boleia de Joana Guerra (violoncelista, cantora, performer) até ao local de ensaio da companhia Hotel Europa – o Teatro Thalia, nas Laranjeiras, Lisboa.

Joana explica, “– Não tenho aqui o meu disco dos ASIMOV com o qual costumo começar as manhãs, por isso vou pôr um CD do Lourenço Crespo que me anima.” As estradas estão vazias, nunca foi tão fluido entrar em Lisboa a estas horas. “– Mas alguns condutores aproveitam-se para conduzir muito mal!”, alerta Joana.

Hoje é o terceiro dia de ensaios para um espetáculo da companhia Hotel Europa, encomendado pelo gabinete do Primeiro Ministro, sob conselho e curadoria dxs diretorxs dos quatro Teatros Nacionais de Portugal. É uma proposta peculiar, surge na urgência do contexto COVID-19, implicando a filmagem do espetáculo para que seja transmitido na televisão dia 25 de abril.

Neste período de confinamento obrigatório, em pleno estado de emergência, Joana admite o prazer que tem em poder sair de casa e passear de carro, tudo lhe parece mais intenso: “– O verde dos campos à beira da autoestrada, a velocidade das nuvens ao vento, o betão cinzento da cidade.” Há três dias que espera ser parada pela policia e mostrar a “carta convite” que tem do gabinete do Primeiro Ministro (PM). Há expectativa e gargalhadas neste velho VW Polo a caminho do Teatro Thalia.

9h50 – Teatro Thalia, Laranjeiras, Lisboa

Ao estacionar o carro no parking do Teatro, cruzamos a produtora. Tem uma máscara posta. Levantam-se os braços para cumprimentar e adivinha-se um sorriso graças ao prolongamento deste até aos olhos.

As grandes portas do Teatro são abertas com a manga da camisola esticada até à mão. Entramos, sou apresentado às pessoas que não conheço. Saudações distantes. Há que tirar os sapatos. É um espaço muito bonito, um edifício histórico, completamente restaurado mas mantendo as marcas do tempo. O pé direito deve ter uns 30 metros. O “palco” central deve ter cerca de 50 m2. A iluminação é subtil, evidenciando as paredes centenárias.

Os artistas vão chegando. Há marcas dos ensaios nos dois dias anteriores: mesas cheias de material; cadeiras espalhadas; fichas elétricas esticadas; e uma zona dedicada às duas crianças que acompanham o processo – filhos do casal que dirige a companhia Hotel Europa e que encena este espetáculo: André Amálio e Tereza Havlíčková.

André propõe começar pelos figurinos. Trouxeram propostas de casa. Cada canto serve de lugar improvisado para mudar de roupa. Enquanto isso a bebé e o irmão estão entretidos na confortável zona que lhes é reservada. O irmão é muito atencioso.

Cada um desfila o seu figurino. André está de fato, camisa branca e agora de bebé ao colo enquanto comenta o que lhe mostram os performers.

A produtora pede mais duas mesas ao técnico do Teatro. Por gentileza, uma delas é para mim.

É tirada uma fotografia de todos em linha com os seus figurinos.

O irmão dá voltas à sala imitando um cavalinho enquanto o pai canta, “– A correr, cha la la”.

Surge a questão da maquilhagem. O que fazer para as gravações de vídeo? Quem tem jeito e material?

Tereza vai amamentar a sua bebé. André propõe que os performers usem este momento para reverem os seus textos e coreografias. Cada um vai para um canto improvisado e daí começa a caminhar de texto na mão. São 6 performers no total. Cheila Lima, está de costas, concentrada, protegida pela sua grande afro.

Passam 20 minutos. Começa o aquecimento liderado por Tereza. Intenso e preciso, com muitos alongamentos, inspirações e expirações profundas. “– Abrir os braços, abrir a boca. Deixar cair os braços e deixar sair o ar todo. Torcer o torax. Torcer a anca. Tornozelos. Manter equilíbrio numa perna. Confortable pain.” O pequeno irmão imita os adultos em aquecimento.

A bebé acorda, mas o irmão corre até ela para reconfortá-la e garantir que volta a adormecer. É o que acontece em poucos segundos.

O aquecimento continua. Tereza pede para que se ponham de gatas, mas um dos performers questiona a limpeza bacteriana e virológica do chão. O diretor garante que foi tudo limpo às 6h da manhã.

O aquecimento acaba. Cada um vai lavar as mãos. Cheira a gel desinfetante.

Começa o ensaio.

Pedro Salvador está à guitarra amplificada. “– All together”, coreografia de mãos e braços em loop. Procura de posicionamentos. Confirmações.

Punhos no ar, “– 25 de Abril sempre, fascismo nunca mais!”

Avançam para outra parte do espetáculo que precisa de mais afinações.

De máscara na boca, de luvas azuis e desinfectante em spray, passam cravos de mão em mão. Mil pequenos detalhes são discutidos e pensados. Posição, forma de passar a flor, quantidades, velocidade, intenção, música, ritmo…

Tempos de pausa, tempos de procura. Mais questões técnicas surgem, nomeadamente no computador usado para transferir gravações a telemóveis com auscultadores. Tempo demorado…calma. Preenchimento.

Estão todos descalços, de meias. Alguns sentem frio no chão de betão. Discute-se se devem pôr álcool nas solas dos sapatos para calçá-los.

Estão agora 3 performers em palco – Cheila Lima, Ricardo Machado e Pedro Salvador. Duas delas têm grandes auscultadores pretos nos quais ouvem gravações das pessoas entrevistadas por André. Vão declamando o que ouvem.

Ricardo, o bailarino, faz uma improvisação enquanto todos observam. Comentam-se as diferentes partes do que foi feito. Há conversa, há debate, há tomada de decisões.

Pausa para almoço, cada um no seu canto. Dá para aquecer comida em micro-ondas. No hall, junto à entrada, há cadeiras e uma janela grande para a rua deserta, mas na qual se avista uma farmácia aberta. Rimos da distância entre nós durante o almoço. Dá para conversar.

Depois do almoço aproveitamos raios de sol nas escadas à frente do teatro Thalia. Há muito vento. Ouvem-se pavões e papagaios porque estamos colados ao jardim zoológico. Muito pó e pólen no ar que reanima alergias. Chega um Lexus de alta cilindrada, do qual sai Manuel Heitor, Ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior. Falando ao telemóvel entra no edifício em frente ao Teatro Thalia.

André motiva a sua trupe, “– Vamos recomeçar malta!”

Pedro pega na guitarra e testa alguns acordes.

Com a filha no porta-bebé ergonómico e de computador na mão, André trabalha em pé. A produtora está sentada ao computador, com várias caixas de email abertas enquanto Joana distribui Halls de mel e limão.

A sala centenária tem cravos espalhados pelo chão. Os performers mudam de roupa novamente. Começam a aquecer e a posicionar-se, reagindo aos inícios de choro da bebé. Alguns reveem os seus textos. Outros ouvem outra vez as entrevistas gravadas e uploadadas nos telemóveis. Cada um caminha para direções diferentes. O chão é frio, alguns estão de ténis que foram previamente desinfetados com álcool.

Ensaiam os seus textos em voz alta. Cruzam-se os passos, cruzam-se as falas. A sala fica cheia de palavras no ar. Tudo a tossir ao mesmo tempo. Risos!

Reiniciam o ensaio de onde acabaram ontem. Começa com Joana e André. Cada um sentado numa cadeira, de auscultadores. Carregam no play ao mesmo tempo. Interagem tal como na entrevista gravada. O André continua com a bebé ao peito que dorme profundamente enquanto ouvimos histórias de clandestinidade em tempos de ditadura.

Acaba a cena, mudança do cenário que necessita de uma mesa grande. Arruma-se tudo o que estava na mesa. Mesa ao centro do palco do Teatro Thalia.

É suposto filmarem na residência oficial do PM. Daí que há mais pedidos que vão sendo feitos à produtora presente: “– Jarras, copos, talheres, uma mesa grande mas que se possa dividir… E será que podemos imprimir aqui?” A produtora sai para telefonar.

Enquanto esperam, todos cruzam os braços nos seus casacos ou pulloveres. Está frio na sala grande.

Joana interpreta uma das entrevistas. Trata-se de uma mulher que foi “apanhada” pela PIDE e embarcada num carro em que os policias tiveram inicios de atos de abuso sexual, mas soube travá-los. Testa-se a possibilidade de acompanhar a declamação com música tocada ao vivo por Joana. Decidem que será sem.

Uma parte das filmagens deste espetáculo será feita na antiga sede da PIDE. Nem todos sabem onde se localiza. Aliás, as filmagens serão em vários locais chave referentes ao tempo da ditadura. A produtora relembra que se há ideias para locais novos é preciso autorizações.

Cheila interpreta um testemunho guineense que faz honras a Amílcar Cabral.

De computador na mão e de bebé ao colo, André contextualiza o espetáculo aos seus artistas.

De auscultadores na cabeça, Tereza interpreta um médico holandês que fez parte da luta anticolonialista e antifascista na Guiné.

Pequena pausa e preparação para ensaio corrido.

Ritmo da guitarra de Pedro. Coreografia dos 5 performers, pulsos levantados, “– 25 de abril sempre, fascismo nunca mais!”

Testemunhos de amor durante a luta contra o fascismo.

André contextualiza novamente o espetáculo, a sua motivação e o seu interesse por estes temas: “– Testemunhos de coragem, entrevistas a pessoas que disseram: nós não pactuamos com isto!”

Mas para iniciar este espetáculo há que começar pelo principio. O rasganço de um voto. “– Não denuncie o meu filho à PIDE!” Muitos heróis sem nome, sem identidade, sem rosto… Por agora não interessa o nome dado à nascença, mas sim o de todas as identidades falsas que tomaram.

Termina o corrido a meio porque são 18h e há que cumprir horários. Planeia-se o dia de amanhã e o inicio das filmagens na sexta-feira. Trocam de roupa. Preocupação com os transportes públicos para voltar a casa, “– Começa agora outra batalha do dia!”, diz uma das performers.” “– Alguém vai ao supermercado hoje?”, “– Preciso de uma coisa.”, “– Não é urgente, mas ontem fiz uma hora de fila e não aguento mais”.

Despedidas distantes. Adeus sem toque, mas com sorrisos.


O resultado estará disponível no dia 25 de abril, a partir das 15h30, nas plataformas online do Governo: no Portal do Governo, República Portuguesa – XXII Governo e Twitter.

Companhia Hotel Europa

Direcção e encenação: André Amálio e Tereza Havlíčková

Interpretes: Cheila Lima; Pedro Salvador; Ricardo Machado; Joana Guerra; Tereza Havlíčková; André Amálio.

Produção: Patrícia Cuan

Diagrafia #6

Ensaio Companhia Hotel Europa

Projeto ArtCitizenship

Alix Didier Sarrouy – CICS.NOVA

Nova rubrica – Destaq’Art

Destaq’Art – Artes da cidadania em destaque

Esta é uma rubrica semanal do ArtCitizenship em que damos visibilidade ao trabalho criativo de autoras e autores que têm colaborado de forma mais próxima connosco. O projecto criativo é destacado na medida em que corresponde a uma forma de exercício de cidadania e de participação política em torno de certas causas sociais.

Destaq’Art – Artes da cidadania em destaque

Diagrafia #5 – Greve Climática Global – Lisboa, 27set2019

Diagrafias

A ideia nas Diagrafias é fazer etnografia de um dia específico, sobre uma comemoração pública ou uma iniciativa privada, a situar no tempo e no espaço. O exercício baseia-se na observação etnográfica num só dia, sem possibilidade de continuar a exploração do mesmo tema noutra ocasião. O resultado formal deve ter um texto no qual se transcreve tudo o que se anotou no caderno, junto com gravações de som ambiente.

A transcrição das notas etnográficas quer-se o mais próximo possível do original, ou seja, com poucas correções formais e factuais. Um dos intuitos é apenas de revelar um olhar etnográfico sobre as ações sociais durante um dia, sem que haja comentários ou aprofundamentos analítico-teóricos. É a revelação da forma mais crua de observações etnográficas, deixando ao leitor a liberdade de interpretar, de querer analisar e questionar.

A nível do método e da forma, as Diagrafias estão próximas do que é feito em etnografia com “descrição densa” (Geertz, 1973), mas também dos documentários de Wiseman, Rouch ou Depardon, e da mais recente escrita da antropóloga Françoise Héritier (2012, 2017). O resultado não tem qualquer pretensão literária, embora nele se revele uma estética muito própria à escrita de notas curtas sobre interações sociais e sobre os contextos nas quais se realizam.

Esta quinta Diagrafia do projeto ArtCitizenship é sobre a Greve Climática Global em Lisboa, no dia 27 de Setembro 2019. Foi uma semana de manifestações por todo o mundo, e por todo o Portugal nessa sexta-feira. Propomos que durante a leitura da observação etnográfica oiça o som da manifestação com auscultadores.


Diagrafia #5

Greve Climática Global – Lisboa

Sexta-feira, 27 de setembro 2019

14h20 – Chego ao Jardim Roque Gameiro (arquiteto e pintor). Grupo de jovens à volta da árvore centenária para aproveitar a sombra.

Há uma faixa do Sindicato de Estudantes no chão.

Junto à escultura do Homem do Leme está montada uma mesa sobre a qual foram expostos cartazes, pins (Black Resistance, Gay Rainbow, Clima/Planeta, Pride, Black Lives Matter), o Jornal “A Centelha”, e livros para vender (Estado de la Revolución, de Lenin, Manifesto Comunista, de Marx e Engels, Reforma y Revolución, de Rosa Luxemburgo).

Estão presentes alguns adultos.

Bastantes máquinas fotográficas e de filmar. Tripés também.

Várias mães com as suas crianças, uma delas tem o bebé ao colo.

No total parecem-me estar 30 pessoas.

Já se testam megafones.

Junto ao rio Tejo está um grupo de policias com motas e carrinha. Falam do Sporting.

Um homem alto, de chapéu, cabelo branco, barba grande e pintada de verde, com óculos escuros redondos, calções azuis e sandálias, tem um cartaz no qual está escrito “Climate change strikes adults too”. Muitas fotografias lhe são tiradas.

No pequeno muro que circunda a árvore central sentam-se grupos de jovens com mães ou professoras.

Do outro lado, frente à estação de comboios do Cais do Sodré, chegam muitos jovens. Tiram uma animada foto de grupo.

No jardim há uma tabuleta na qual está escrito “Proibido alimentar pombos”.

Chega um grupo de adultos com mantas e uma grande tabuleta triangular: “Sentar em silêncio com a Terra – Ser Terra”.

Cartazes: “My world isn’t fine, what about yours?”, “Mother earth is calling”, “Salvem o clima”.

Chegam dois jovens com colunas de som montadas num carrinho.

Ouvem-se línguas estrangeiras.

“A cara dela é a cara de todos nós”, frase colocada num poster em que Greta Thunberg parece enraivecida atrás de Donald Trump.

Vão chegando grandes grupos de pessoas que marcaram local de encontro noutro lugar.

Há abraços e beijos afetuosos.

Vários jovens têm cabelos multicolores.

É feito um teste à coluna de som.

Aproveita-se o megafone para chamar pelo Rodrigo, “– Onde é que estás?”

Chegam mais adultos que se juntam ao grupo das mantas no chão. Parecem hippies. Sorriem muito. Descalçam-se e sentam-se nas mantas, por baixo da árvore.

Uma senhora faz sucesso com o seu cão preto vestido de uma t-shirt branca na qual está escrito: “Não há planeta B. Patuda pelo planeta”.

Num dos bancos do jardim estão duas idosas. São estrangeiras e tentam tirar uma selfie. Uma jovem portuguesa propõe a sua ajuda para tirar uma fotografia com o telemóvel. As duas senhoras comentam: “Oh, they are sweet!”

Fazem-se muitas fotografias de grupo.

Em pé está um senhor estrangeiro, de fato e gravata que me parecem caros, com óculos Persal do modelo Steve McQueen, sapato preto engraxado. Tem uma tabuleta de madeira na qual está gravado: “On strike for the climate”. Deve ter por volta de 45 anos, com um ar de Pierce Brosnan ou de agente do Matrix. Dando a volta à personagem noto que a tabuleta de madeira vem do tampo de uma caixa de vinhos do Douro, CARM Maria de Lourdes.

Cartazes: “Why do you bully me?”, “Save the turtles”, “Greve climática global em autodefesa”, “A Terra esgotou a sua paciência e nós também”, “Neste verão não foram só os gelados que derreteram”, “Make love, not toxic haze”, “Make earth great again”.

14h56 – Estão agora cerca de 300 pessoas. Ouve-se o Zeca Afonso nas colunas de som: “O que faz falta…”

As faixas estão alinhadas no chão. Seguem a ordem do cortejo a vir: “Catástrofe iminente, ação urgente”, “Climaximo”…

Um dos altifalantes não para de fazer feedback.

Canta-se uma nova versão de António Variações, “Se o Governo não tem juízo…”

Um senhor de idade passa pela multidão com sacos do Pingo Doce pesados: “– Quem quer água?”. Vende cerveja também. “– Olhem que no Rossio será mais caro!”

Enquanto alguns jovens líderes se organizam e tomam a palavra, muitos jornalistas colocam-se entre as faixas estendidas no chão. Fotos e filmagens. Alguns têm microfones nas mãos. Grita-se “Power to the people!”. Canta-se “Oh Terra txau txau txau…”.

Rapaz com cerca de 5 anos tem uma cartaz: “Denial is not a policy”.

O grupo dos adultos sentados continua a aumentar. Estão em silêncio no meio da multidão agitada. Tem um forte impacto simbólico.

Há jovens com megafone na mão que passam no meio do público aos pulos e gritam palavras de ordem.

Nos canteiros de relva estão grupos de crianças a lanchar. Sentam-se por cima dos cartazes. Os pais, dos quais alguns são artistas reconhecidos de Lisboa, distribuem a comida. Cada criança tem uma máscara de respiração, daquelas simples, que se vendem nas farmácias.

Ouvem-se gritos a pedir silêncio.

15h20 – Devem estar cerca de 500 pessoas no largo, em torno da escultura do Homem do Leme. As pessoas procuram um lugar à sombra neste dia de sol quente e céu azul.

15h21 – Observando melhor, penso que devem estar cerca de 1000 pessoas até à frente da Estação do Cais do Sodré.

O senhor dos sacos grita “– Olhá cerveja!”

Há uma comitiva do PSD um pouco à margem, junto à rotunda. Estão de cor de laranja e têm vistosas bandeiras do seu partido montadas às costas. Um pouco à frente, o PS também está representado. Tem uma faixa a dizer “Socialismo ambiental”. Entretanto a comitiva do PSD mete-se em fila indiana para ultrapassar o PS.

Ao longe vejo muita gente a chegar do metro e do comboio.

Há um grupo de homens com t-shirts brancas nas quais está escrito “Ligue-se @ nós”. São bancários que se dizem preocupados com o clima.

Há tantos cartazes neste grande grupo de pessoas. Tapam-se uns aos outros. Parecem lutar para serem vistos. As palavras de ordem também parecem confrontar-se, procurando ser ouvidas por todos.

Cartazes: “How dare you?”, “Respect your mother”, “Não ao furo, sim ao furo”, “Daqui a pouco vai haver tanto CO2 no ar que eu já não vou precisar de ganza para a moca”.

15h35 – Começa o cortejo. A multidão atravessa a praça do Cais do Sodré e dirige-se para a Rua do Arsenal. Uma senhora é ajudada a passar o seu carrinho de bebé por cima do pequeno muro. Um casal de idosos tenta passar pelo meio da multidão. Têm sorrisos nas caras e bengalas nas mãos.

Na Rua do Arsenal há pessoas que se metem à janelas dos prédios.

A multidão grita e assobia.

Os fotógrafos posicionam-se por cima das caixas de electricidade junto aos prédios.

A meio da rua, a multidão é convidada a baixar-se e a pôr-se de joelhos no chão. Levantam-se ao ritmo das palavras de ordem e gritam.

Duas jovens usam máscaras com caras de leão. Levantam um cartaz que defende a espécie.

Observo lutas de espaço entre partidos, entre fotógrafos, entre cartazes.

As pessoas na varandas olham curiosamente. Alguns fazem sinais de adeus.

Já na Rua do Ouro passamos por vários prédios em obras. A estrutura metálica que os protege serve de percussão. Muitos manifestantes batem nelas. Ao primeiro andar, de um buraco na rede envolvente, surge um senhor das obras cheio de pó. Faltam-lhe dentes da frente. Sorri animadamente e faz sinal de ok com a mão direita.

Cartazes: “It’s so bad that even introverts came”, “If you breath air you should be here”, “Planeta, amigo, o povo está contigo”, “Exploração de gás, Bajouca diz não”.

Humor, sentir, rir, entreajuda, olhar, caminhar, ajoelhar, levantar, braços, voz.

A melhor vista desta marcha deve ser do elevador de Santa Justa. Nas escadas e lá em cima estão muitos turistas a filmar com telemóveis nas mãos.

16h27 – Chegada ao Rossio.

Os pais que levam aos ombros as crianças com cartazes têm muito sucesso junto dos fotógrafos.

A frente da marcha dá uma volta à praça do Rossio.

Uma senhora resmunga porque muitos cartazes e muitas palavras de ordem são em inglês.

Forma-se um grupo junto à estátua central, do lado do Teatro Dona Maria II. Há faixas e cartazes no chão.

Uma criança com cerca de 8 anos segura um cartaz: “Se o planeta morre nós também”.

As crianças adoram cada vez que a multidão grita. Os cães não.

Cerca de 50 pombos voam dando a volta à praça por cima da multidão. Pousam na estátua central.

Enquanto isto, a marcha continua a chegar. Ainda há muita gente na Rua do Ouro. Uma ambulância aos berros tenta penetrar a multidão para dar a volta à praça.

Cartazes: “We are skipping a lesson to teach you one”, “Qual é o verde que vê?”.

Os partidos políticos vêm no fim: PSD, PS, VOLT, MAS.org, Bloco de Esquerda, Sindicato de Professores, Zero. Uma das lideres da comitiva do PSD é entrevistada durante a sua chegada ao Rossio e provoca a paragem de toda a cauda da marcha. Há palavras de protesto de alguns que assistem à cena. “– Hipocrisia”, grita um jovem.

Ao centro, junto à estátua, vão acontecendo os discursos das pessoas que se inscreveram. Há palavras fortes, a multidão que consegue ouvir reage.

Os jornalistas aproveitam as pessoas paradas a escutar para tirar fotografias, a elas e aos seus cartazes.

Cartaz: “Vão poluir prá p*** que vos pariu”.

Progressivamente, a multidão dispersa-se para as esplanadas dos cafés, para as ginjinhas, para as paragens dos autocarros e as bocas do metro.

Diagrafia #5

Greve Climática Global – Lisboa

Projeto ArtCitizenship

Alix Didier Sarrouy – CICS.NOVA

Artes da Cidadania em Conversa

“Artes da Cidadania em Conversa” é constituída por pequenos vídeos de entrevistas realizadas a um conjunto de interlocutores(as) para refletir sobre as temáticas da pesquisa.

Houve primeiramente uma longa Conversa com cada interlocutor(a), baseada num guião semiestruturado, na qual se gravou apenas o som para uma análise posterior. No final dessa partilha de saberes responderam a três questões face a uma câmara de filmar.

Interessa-nos a variedade de perfis, de sensibilidades, de discursos e de respostas. As artes, nas suas múltiplas formas de expressão, servem de fio condutor. 

Os novos vídeos serão divulgados uma vez por semana, à segunda-feira, no website do projeto ArtCitizenship. 

#46 – Clara Não (Ilustradora)

#45 – Kali (Artista, Panelas Depressão, passaromacaco)

#44 – Maria Mesquita (Ativista)

#43 – Andreia Coutinho (Ilustradora, ativista curatorial, FACA)

#42 – NËSS (Música, Ativista não-binária e Queer)

#41 – Alex aka plant_boy (Ilustrador)

#40 – Herlander (Músico, Artista)

#39 – Raquel Smith-Cave (CuntRoll Zine, Queer as Fuck, Festival Feminista de Lisboa)

#38 – BLEID (Música, Colectivo MINA)

#37 – Duarte Marques (Músico, Extinction Rebellion)

#36 – Alexa Santos (Assistente social & Feminista interseccional)

#35 – Gil Ubaldo (Activista, Justiça Climática)

#34 – Patrícia Carreira (Academia Cidadã, Encenadora & Realizadora)

#33 – Valentina Vargas (Ser humana & Artivista)

#32 – Maria Giulia Pinheiro (Dramaturga, Poeta, Slammer)

#31 – Bianca de Castro (Estudante & Ativista Climática)

#30 – Boris Nunes & João Desmarques (ATR + dUASsEMIcOLCHEIASiNVERTIDAS)

#29 – Raquel Moreiras (Activista e Estudante de Direito, Greve Climática)

#28 – João Costa (Campanha Linha Vermelha, Academia Cidadã)

#27 – Raquel Lima (Poeta, Arte-educadora e Investigadora de Estudos pós-coloniais)

#26 – Diogo Silva (2degrees artivism, Climáximo)

#25 – Alex Couto (Escritor, Publicitário)

#24 – Daniel Matos (Coreógrafo, Bailarino)

#23 – Carolina Elis (Artivista, Afro-feminista)

#22 – Rodrigo Vaiapraia (Músico, Performer)

#21 – Marianna Louçã (Estudante, Activista Climática)

#20 – Pavel Tavares (Artista audiovisual, Documentarista, Professor)

#19 – Pedro Figueiredo (Co-criador de The Worst Tours Porto)

#18 – Maria Kopke (Escritora, Performer, Cantora)

#17 – Luca Argel (Músico, Poeta)

#16 – Miguel Januário, aka ±MAISMENOS± (Artista)

#15 – Inês Tartaruga Água – Artista plástica

#14 – Melissa Rodrigues – Performer, Arte-educadora, Activista

#13 – Frankão, O Gringo Sou EU (Músico/Produtor)

#12 – Sinan Eden – Activista (Climáximo)

#11 – Gil Dionísio – Músico, Performer, Editor, Escritor

#10 – Surma – Artista

#9 – Rui Eduardo Paes – Crítico musical, Programador, Jornalista, especializado em Jazz e Música Improvisada

#8 – Mia Distonia – Writer, Performer, Musician

#7 – Ana Tica – Produtora Cultural & Realizadora

#6 – Andreia Galvão, Bernardo Alvares, Carmo Pereira

#5 – Maria do Mar – Música, Programadora, Professora

#4 – Rodrigo Gomes, Violeta Alexandre, Valdemar Dória

#3 – Kedy Santos – Artista, Mediador Cultural, Eng. Químico

#2 – Matilde Real, Alexandre Castro, Isabel Simões

#1 – Lila Fadista & João Caçador – Fado Bicha

Diagrafia #4 – Justiça Climática Caldas da Rainha – 24Maio2019

Diagrafias

A ideia nas Diagrafias é fazer etnografia de um dia específico, sobre uma comemoração pública ou uma iniciativa privada, a situar no tempo e no espaço. O exercício baseia-se na observação etnográfica num só dia, sem possibilidade de continuar a exploração do mesmo tema noutra ocasião. O resultado formal deve ter um texto no qual se transcreve tudo o que se anotou no caderno, junto com gravações de som ambiente.

A transcrição das notas etnográficas quer-se o mais próximo possível do original, ou seja, com poucas correções formais e factuais. Um dos intuitos é apenas de revelar um olhar etnográfico sobre as ações sociais durante um dia, sem que haja comentários ou aprofundamentos analítico-teóricos. É a revelação da forma mais crua de observações etnográficas, deixando ao leitor a liberdade de interpretar, de querer analisar e questionar.

A nível do método e da forma, as Diagrafias estão próximas do que é feito em etnografia com “descrição densa” (Geertz, 1973), mas também dos documentários de Wiseman, Rouch ou Depardon, e da mais recente escrita da antropóloga Françoise Héritier (2012, 2017). O resultado não tem qualquer pretensão literária, embora nele se revele uma estética muito própria à escrita de notas curtas sobre interações sociais e sobre os contextos nas quais se realizam.

Esta quarta Diagrafia do projeto ArtCitizenship foi feita sobre a manifestação da juventude das Caldas da Rainha que participou numa greve escolar a propósito da Justiça Climática, dia 24 de Maio 2019. A iniciativa envolveu cidades de todo o mundo através do apelo iniciado por Greta Thunberg, jovem ativista da Suécia. Propomos que durante a leitura da observação etnográfica oiça o som da manifestação com auscultadores.


Diagrafia #4

Manifestação pela Justiça Climática

Greve escolar por parte da juventude nas Caldas da Rainha

Sexta-feira, 24 de maio 2019

10h19

Frente à Praça de Touros das Caldas da Rainha

Apresento-me a dois dos organizadores, com quem tinha estabelecido contacto por via do Facebook. Enquanto conversamos, um agente da polícia pergunta quem organiza a manifestação. Uma das adolescentes é designada e vai ter com o agente. O polícia veio de bicicleta, está equipado com capacete, calções, pólo azul claro, luvas de ciclismo e um cinto cheio de bolsas. Enquanto fala com a jovem é muito sorridente e lança piadas para descontrair o ambiente. A adolescente não parece estar muito confortável e não sabe como deve reagir. Depois de explicar as regras da manifestação e de dizer que só podem começar a partir das 10h30, o agente da polícia pede desculpa pelo seu jeito descontraído e diz que é uma brincadeira, “– É só para vos testar”. A jovem sorri e volta a grupo.

A esta hora ainda estão poucos jovens presentes, cerca de  30.

Parece-me que as idades vão dos 8-9 aos 17-18 anos.

Uma senhora acompanha os seus dois filhos pré-adolescentes. Já têm os seus cartazes nas mãos.

Na calçada, junto à parede da Praça de Touros, está um monte de cartazes prontos a serem usados. São de cartão, pintados e com slogans coloridos. Alguns têm figuras desenhadas.

A faixa principal já está a ser segurada por um rapaz e por uma rapariga, um em cada ponta. Também já há um pequeno megafone a ser testado.

Um dos organizadores da marcha é baterista. Trouxe três partes da sua bateria: dois timbalões e uma tarola. É fixada uma fita em cada instrumento, para possam ser tocados durante a marcha. O dono pega na tarola e pergunta em voz alta se alguém sabe tocar. Uma amiga diz que sim e é ensinada por ele. Riem-se durante esta partilha.

Outras percussões são testadas.

O resto dos cartazes que foram feitos previamente é distribuído pelos presentes.

Há mais jovens a juntarem-se ao passeio em frente à Praça de Touros, chegam em grupos.

No chão resta apenas um cartaz. É muito pequeno e nele está escrito “SOS”, com o O substituído pela palma de uma mão.

Há grupos de jovens a chegar de todas as ruas adjacentes.

O passeio enche-se de gente.

O agente da polícia continua sorridente e prestável. Vai ter com os grupos que estão na estrada e pede para que se metam no passeio, “– Pra garantir a vossa segurança”.

Um manifestante troca o seu timbalão pela tarola.

Uma adolescente vai ter com o agente da polícia e explica que encontrou o cão que leva na trela. O agente diz-lhe que deve ir à esquadra com o cão. A jovem parece atenciosa, mas desesperada.

Do outro lado da rua instalam-se alguns curiosos. São sobretudo idosos que olham para o grupo de jovens que se vai formando.

Dentro da massa de gente que se vai formando no passeio da Praça de Touros há pequenos grupos em conversa. Há também um grupo mais isolado, parecem ser mais jovens que os outros.

Há adultos presentes. Algumas parecem-me ser as mães dos pré-adolescentes e adolescentes presentes. Outros parecem-me ser professores ou membros de partidos e de  associações locais ligadas a causas ambientais e juvenis.

A adolescente que encontrou o cão vem ter comigo. Tendo o meu caderno de campo na mão, ela pergunta-me se sou jornalista e se posso ajudar a divulgar a situação do cão. Encontrou o cão esta manhã na sua escola, a D. João II.

Estão agora presentes cerca de 120 pessoas. Chega mais um grupo, de queixos para cima, à procura dos amigos.

Foi instalada uma coluna de som. Começa a soar o “Grândola vila morena”. Todos acompanham Zeca Afonso. Alguns batem palmas.

Uma das senhoras presentes no meio do grupo filma tudo com o seu telemóvel. Sorri. Alguns jovens fazem-lhe um “Olá!” com a mão direita.

10h47 – O agente da polícia contacta os colegas por telemóvel e informa que ainda está em frente à Praça de Touros. Enquanto isso faz sinal para que grupos de manifestantes saiam da estrada e se metam no passeio.

Zeca Afonso continua a cantar: “Eles comem tudo”.

Uma das organizadoras da manifestação pega no microfone que está ligado à coluna e informa: “– Vão ao Insta da greve para ver a lista das frases (slogans), foi publicada”

Há aqui algumas pessoas que são muito jovens, por volta dos 7 anos de idade. Estão acompanhadas. Também está presente uma mãe com bebé ao colo.

Um jovem tem o seu skate (longboard) à mão.

Mochilas Eastpak às costas, de forma muito laça.

A maioria dos presentes está de calças de ganga e tem ténis brancos (muitos da Adidas).

Houve-se Rap português numa pequena coluna portátil.

10h55 –Trânsito parado. Começa a manifestação. A tarola lança a marcha.

A massa de jovens avança rapidamente e desce a rua da frente. Ocupam a largura toda. Uma senhora de idade está em contramão e tem dificuldade em avançar no meio da multidão.

É uma rua com bastante comércio. Os trabalhadores e os clientes vão até à portas de entrada para assistir à manifestação. Há olhares de curiosidade e há sorrisos. Alguns parecem demorar mais tempo para perceber a razão desta manifestação.

“O poder das pessoas é maior que as pessoas de poder” (frases dos posters)

Climatic justice now

“Já não há tempo para pensar, só acionar”

It’s time

“Oh Costa, limpa a costa”

“Se o clima fosse um banco, já estava salvo”

“O clima está mudando mais rápido que as ações”

“É mais fácil imaginar o fim do mundo, que o fim do capitalismo”

“Eu mereço um futuro”

Há quatro megafones e três percussões a serem utilizados.

“Nunca se é demasiado pequeno para se fazer a diferença”

“Para quê ir à escola se não vamos ter futuro?”

“O planeta é só um”

“Não há planeta B”

Message in the bottle

“Penso, logo protesto”

A senhora do bebé ao colo marcha no fim da manifestação.

Durante a marcha, um pequeno grupo chateia os que estão à sua frente batendo nas suas cabeças com os cartazes.

11h16 – Chegada à praça onde se vende fruta e legumes. A marcha contorna as bancadas.

Os presentes ficam a olhar com curiosidade. Parece-me haver caras de orgulho e felicidade.

Dão a volta à praça toda e entram numa das ruas pedonais que tem mais comércio.

Aí, fazem um sitting frente à livraria Parnaso: todos se sentam no chão e levantam-se progressivamente ao ritmo da tarola enquanto cantam; ao estarem novamente de pé saltam e gritam de braços no ar.

Help me

Há sempre gente à porta das lojas a observar o que se passa.

Um guitarrista que normalmente toca nesta rua é obrigado a parar e a “refugiar-se” no passeio de uma das lojas. Está sentado nesse passeio, de guitarra na mão e acompanha o ritmo da manifestação batendo com a mão direita no corpo da guitarra.

Ao megafone ouve-se: “– E com a poluição o que é que acontece?”, “– Andamos para trás”. Todo o grupo de manifestantes anda para trás enquanto responde.

Há humor, há risos, há brincadeira (faz-me pensar em todos os escritos sobre a noção de “play” nas manifestações).

E de repente, os megafones convocam uma corrida para a frente. Correm a rir e a gritar. Tem um efeito forte.

“# faz pelo clima”

Novo sitting. Todos sentados no chão.

“– O que é que foi feito desde o 15 de março?” (megafones)

“– Nada!” (manifestantes em conjunto)

“– Nada mudou” (repetem uma dezena de vezes enquanto se levantam progressivamente)

“– Sem políticas ambientais, o que é que acontece?”, “– Voltamos para trás, voltamos para trás” (andam para trás enquanto gritam a resposta).

E, de repente, uma vez mais, todos correm para a frente.

O polícia que estava a controlar os carros é completamente ultrapassado pelo movimento incontrolável da multidão. Há um certo perigo envolvido devido a um carro que vinha nesta direção, mas o condutor percebeu a situação e travou calmamente. A multidão passa pelo agente da polícia enquanto este ainda tem os braços abertos em sinal de espanto.

Chegamos à praça onde se encontra a Câmara Municipal de Caldas da Rainha.

“– O que aconteceu depois do 15 de março!?”, “– Nada” (respondem todos sentados nas escadas da Câmara). Começa o sinal dado pela tarola e todos se levantam seguindo o seu ritmo em aceleramento.

“– O povo unido jamais será vencido” x 5

A escadaria da Câmara Municipal das Caldas da Rainha está completamente cheia. Do seu lado esquerdo está uma escultura de Zé Povinho (sem fazer o manguito), protegida por uma estrutura de vidro transparente.

“– Oiçam a nossa voz, o futuro somos nós!”

“O capitalismo não é verde”

Warning – Warming

Nas janelas do 1º e 2º andar vêem-se funcionárias da Câmara a filmar o que se passa cá em baixo.

“Justiça climática já”

Novo sitting nas escadas da Câmara Municipal.

Lá em cima juntam-se mais funcionárias às janelas. São só senhoras.

No cimo da escadaria, uma das organizadoras da manifestação faz um discurso ao microfone. Usa o telemóvel para ler o seu discurso. “– Os mais afetados são aqueles de quem a palavra menos conta”. No final há uma ovação.

O Presidente da Câmara Municipal desceu para acolher os manifestantes: “– Bem vindos à Câmara Municipal”. No seu discurso faz uma balanço da situação municipal, mas rapidamente fala sobre as responsabilidades ao nível nacional e até aos vários níveis internacionais. Isso não cai bem nos ouvidos de alguns dos presentes. Final do discurso com aplausos.

Voltam os slogans.

Organizadores perguntam se alguém quer usar o microfone para discursar.

Começam os discursos individuais. Reclamações porque não se ouve nada com o microfone. Tem de ser bem posto em frente à boca.

Uma das oradoras prefere gritar do que falar ao microfone. Isso cria muito entusiasmo nos manifestantes. Grita o seu discurso com emoção. Várias vezes é obrigada a recuperar o fôlego.

Vários jovens fazem discursos. Aplaudidos ao pegarem no microfone. Não me parecem tímidos, os discursos são improvisados, articulados e sentidos.

Nos seus discursos, pegam nas palavras do Presidente da Câmara para contradizê-lo. Explicam que não podemos dizer que a responsabilidade não é nacional. Dão os exemplos do aeroporto no Montijo e dos furos para petróleo e gaz no Alentejo e no Algarve. Também estão contra o argumento internacional do Presidente quando diz que a grande responsabilidade é da China e dos EUA. A responsabilidade começa aqui, “– Em cada um de vocês”, insiste uma das líderes.

Outra das organizadoras da manifestação diz ao microfone que a luta pelo clima também é uma luta de carácter social, pela igualdade de género, pelas minorias, “– Porque o planeta é de todas e de todos!”.

Um dos adultos que acompanhou a marcha toda pede o microfone: “– Peçam aos vossos pais para votar neste domingo para a eleições europeias!”

Começa a tocar o “Grândola vila morena”. Todos cantam. Há punhos no ar.

Progressivamente forma-se um círculo na calçada em frente à escadaria. No centro, na calçada, são depositados todos os cartazes da marcha, com os slogans virados para cima.

Ainda ao microfone:

“– Fim às touradas”

“– Fim à industria animal”

“– Não à carne”

Acaba a manifestação. Ao megafone faz-se um apelo para aqueles que precisam de receber a autorização/comprovativo de participação na manifestação. Cria-se uma grande fila. Ao fim de pouco tempo já não há cópias suficientes. Os organizadores marcam num caderno o número de pessoas em falta, “– Fila única, por favor!”.

Os organizadores da manifestação estão juntos e conversam no cimo da escadaria. Há um adulto com eles. Fala da sua experiência no ativismo ambiental.

12h38 – Os funcionários da Câmara Municipal saem para ir almoçar.

Juntam-se os cartazes e limpa-se o chão.

Um dos percussionistas senta-se no cimo da escadaria. Conversa e descanso.

Dois adultos vão ver os cartazes deixados no chão. Um deles escolheu um cartaz e diz, “– Bué bom!”. No cartaz está escrito: “Oh mar salgado, quanto do teu sal, É plástico de Portugal?”

Há conversas sobre onde almoçar. Os jovens manifestantes dispersam-se em pequenos grupos.

Diagrafia #4

Manifestação Justiça Climática

Juventude das Caldas da Rainha

Projeto ArtCitizenship

Alix Didier Sarrouy – CICS.NOVA

Diagrafia #3 – Estreia de “Ela é uma música” – 10Maio2019

Diagrafias

A ideia nas Diagrafias é fazer etnografia de um dia específico, sobre uma comemoração pública ou uma iniciativa privada, a situar no tempo e no espaço. O exercício baseia-se na observação etnográfica num só dia, sem possibilidade de continuar a exploração do mesmo tema noutra ocasião. O resultado formal deve ter um texto no qual se transcreve tudo o que se anotou no caderno, junto com gravações de som ambiente.

A transcrição das notas etnográficas quer-se o mais próximo possível do original, ou seja, com poucas correções formais e factuais. Um dos intuitos é apenas de revelar um olhar etnográfico sobre as ações sociais durante um dia, sem que haja comentários ou aprofundamentos analítico-teóricos. É a revelação da forma mais crua de observações etnográficas, deixando ao leitor a liberdade de interpretar, de querer analisar e questionar.

A nível do método e da forma, as Diagrafias estão próximas do que é feito em etnografia com “descrição densa” (Geertz, 1973), mas também dos documentários de Wiseman, Rouch ou Depardon, e da mais recente escrita da antropóloga Françoise Héritier (2012, 2017). O resultado não tem qualquer pretensão literária, embora nele se revele uma estética muito própria à escrita de notas curtas sobre interações sociais e sobre os contextos nas quais se realizam.

Esta terceira Diagrafia do projeto ArtCitizenship foi feita sobre a estreia do filme “Ela é uma música”, de Francisca Marvão, no Festival Indie Lisboa. Na sinopse está escrito: “As miúdas andam por aí… a rockar como se não houvesse amanhã! ‘Ela é uma música’ é uma viagem de descoberta pelo mundo do rock em Portugal, na voz das suas ilustres desconhecidas: as mulheres.” Propomos que oiça o som ambiente durante a leitura.


Diagrafia #3

Estreia do filme “Ela é uma música”

Festival Indie Lisboa, Cinema São Jorge

Sexta-feira, 10 de maio 2019

18h41, Avenida da Liberdade em Lisboa, face ao Cinema São Jorge.

*O som desta Diagrafia #3 é uma montagem do que foi gravado antes e durante a projeção do filme. 

As escadas do cinema estão cheias de gente. Está tudo a conversar e a fumar.

Algumas pessoas estão de pé, no passeio. Os postes de sinalização servem de encosto.

Há muitos reencontros. Pessoas a abrir os braços desde longe, há sorrisos, gargalhadas até à união dos corpos.

Algumas pessoas estão sós, de queixo para cima, à procura da companhia.

No passeio em frente ao cinema passam grupos de turistas.

No canto direito das escadas do São Jorge, entre o pilar e a parede, duas jovens entreajudam-se para enrolar uma ganza. Uma delas tem o braço engessado.

O balcão que dá para a avenida da Liberdade, no 1º andar do São Jorge, tem bastante gente. Há copos e cigarros nas mãos. O ambiente parece ser relaxado lá em cima.

Para subir as escadas até ao hall, onde estão a bilheteira e o bar, há duas passagens por entre as pessoas sentadas aleatoriamente. Uma passagem em S e a outra em diagonal. Nota-se a fila para a bilheteira do lado esquerdo, é longa e passa por entre pessoas que formaram grupos de conversa.

Francisca Marvão, a realizadora do filme que vai ser projetado nesta sessão do Festival Indie Lisboa, está junto ao fim da fila da bilheteira. Uma conhecida cumprimenta-a, “– É hoje! Parabéns!”

Há muitas pessoas que revelam ter atenção à sua apresentação visual, ao seu estilo, à sua imagem. As suas escolhas chamam a atenção: sapatos vermelhos; óculos grandes, circulares e cor de laranja; cabelos presos, mas de uma forma que parece propositadamente desleixada; homens de chapéu; uma afro vigorosa; cabelos pintados de azul, de vermelho, de amarelo. Homens e mulheres têm cortes de cabelo à “tigelinha”, pintados, similares à cantora portuguesa Surma.

A fila para a bilheteira mantém-se longa.

Há muitas figuras conhecidas do meio artístico lisboeta, particularmente da música dita mais underground.

O bar do lado oposto à bilheteira também está lotado de pessoas. De copo na mão, juntam-se em torno das mesas altas. Há copos e pacotes de comida vazios em cima das mesas.

Encontros apressados entre conhecidos. Está na hora de subir para a sala principal. Oiço duas pessoas a dizer: “– Tens bilhete?”, “ – Sim!”, “ – É que tenho um a mais”.

No hall, depois da bilheteira, vende-se o merchandising do Festival.

Ao fundo, junto ao WC feminino, está um bancada só para distribuir os convites.

O hall esvazia-se porque as pessoas vão subindo.

Há duas pessoas que olham para a porta de entrada de queixo levantado. Parecem estar à espera de amigos.

Lá em cima amontoam-se as pessoas para entrar na sala principal onde o filme será projetado. A fila tem a forma de U, embocando nas duas entradas laterais.

As pessoas que estiveram sentadas nos sofás do bar neste 1º andar começam a levantar-se para entrar. Ficam os copos vazios.

Há conversas dinâmicas na fila para entrar na sala.

Continuam a haver cabeças à procura de amigos.

Uma pessoa grita o nome de outra para que venha juntar-se à fila.

Vão entrando na Sala 1 do Cinema São Jorge.

Barry White está a soar nas colunas do bar do 1º andar.

A fila já não tem o formato de U. São agora duas filas pequenas, em frente a cada porta.

A sala é muito grande. Os presentes enchem metade da sala. Há muita conversa enquanto as pessoas se vão instalando nos lugares livres. O ambiente é vivo, quente. Deve ser isto o ambiente de uma avant-première!?

Ao fundo, no palco, está projetado um cartaz do Festival Indie Lisboa. Na sala há um jovem rapaz que trabalha para o São Jorge. Está vestido de preto e responde às perguntas de uma pessoa: “– Sim podem sentar-se lá em cima.”

Mais reencontros na sala: “– Oláaaa!”

Visto da última fila, de um banco mais à direita, vêem-se muitos telemóveis ligados.

Sobe ao palco um senhor, de microfone na mão, provavelmente o diretor do festival. Pede à realizadora do filme, Francisca Marvão, para que suba ao palco e venha falar do que vai ser projetado, sem deixar de dizer a todos os presentes que “– O filme só chegou hoje”. Isso lança uma gargalhada geral.

Minuto 13.30′ da gravação: quando Francisca Marvão sobe ao palco a sala toda aplaude e há gritos festivos, junto com gargalhadas e muitos sorrisos.

Francisca Marvão não parece confortável no palco, nem com o microfone na mão. Explica a origem do filme.

A realizadora chama ao palco todas as mulheres que fizeram parte do filme. Depois de uma rápida hesitação, há gritos, aplausos, abraços em palco. Um quinto dos espectadores estão agora no palco, cerca de 40 mulheres e 2 homens.

Longos aplausos.

“– Vamos ver o filme?”, pergunta Francisca Mourão sorrindo, “– Espero que gostem!”

As pessoas voltam aos seus lugares. A sala fica escura, o filme vai começar.

Silêncio na sala.


Minuto 19’ da gravação

Inicio da projeção do filme: “Ela é uma música”

Durante o filme, no escuro, tento escrever duas citações:

1) “– Se tocasse numa banda só de mulheres, as conversas na carrinha seriam diferentes.”

2) Uma baterista fala de si própria dizendo sempre: “– Um gajo, não tem que…”

*A partir do minuto 19, a gravação sonora inclui o inicio e o fim do filme. Entre os dois recortámos algumas secções sonoras aleatórias  para se sentir o ambiente do filme e da sala. 


Minuto 40.35’ da gravação

Fim do filme

Longos aplausos, gritos e assobios enquanto passa o genérico. Sentem-se as emoções. Celebram-se as artistas que são as mulheres portuguesas.

À saída há novos reencontros, abraços e beijos.

As “Elas” que participaram no filme estão sorridentes, são abraçadas.

A realizadora é cercada à porta da sala. Beijos, sorrisos, gargalhadas.

“– Chorei tanto no final do filme, a música era linda!”, diz uma pessoa.

“– O filme está muito fixe”, “– Mas o som podia estar melhor”, “– Yah, mas isso resolve-se agora”, discutem duas pessoas.

Em frente à sala 1 formam-se pequenos grupos. As pessoas estão muito juntas e parecem estar a partilhar opiniões sobre o filme.

A fila para saudar a realizadora aumenta. Ela ainda está à porta da sala.

Francisca Marvão consegue mover-se para o hall em frente à sala. Até lá, abraça várias pessoas.

Três senhoras com mais idade, por volta dos 60 anos, vêm ter com a realizadora. Parecem conhecê-la. Uma delas diz: “– Olha, no fim apareceu a filha de uma amiga e a sobrinha da Lizita.”

As pessoas vão para a entrada do Cinema São Jorge. Juntam-se aí para fumar e conversar sobre o filme. Criam-se planos para os jantares e a noite a vir.

Progressivamente, a realizadora e as músicas que vão tocar mais tarde na Casa Independente, escapam para irem jantar a um local reservado. Descem pelos passeios da avenida da Liberdade. Braços aos ombros, mãos no ar, movimentos de anca em calças de couro pretas. Ouvem-se gargalhadas enquanto desaparecem na noite.

Diagrafia #3

10 de Maio 2019 , Lisboa

Projeto ArtCitizenship

Alix Didier Sarrouy – CICS.NOVA

Diagrafia #2 – Manifestações do 1º de Maio 2019

Diagrafias

A ideia nas Diagrafias é fazer etnografia de um dia específico, sobre uma comemoração pública ou uma iniciativa privada, a situar no tempo e no espaço. O exercício baseia-se na observação etnográfica num só dia, sem possibilidade de continuar a exploração do mesmo tema noutra ocasião. O resultado formal deve ter um texto no qual se transcreve tudo o que se anotou no caderno, junto com gravações de som ambiente.

A transcrição das notas etnográficas quer-se o mais próximo possível do original, ou seja, com poucas correções formais e factuais. Um dos intuitos é apenas de revelar um olhar etnográfico sobre as ações sociais durante um dia, sem que haja comentários ou aprofundamentos analítico-teóricos. É a revelação da forma mais crua de observações etnográficas, deixando ao leitor a liberdade de interpretar, de querer analisar e questionar.

A nível do método e da forma, as Diagrafias estão próximas do que é feito em etnografia com “descrição densa” (Geertz, 1973), mas também dos documentários de Wiseman, Rouch ou Depardon, e da mais recente escrita da antropóloga Françoise Héritier (2012, 2017). O resultado não tem qualquer pretensão literária, embora nele se revele uma estética muito própria à escrita de notas curtas sobre interações sociais e sobre os contextos nas quais se realizam.

A segunda Diagrafia do projecto ArtCitizenship foi feita nas manisfestações do 1º de Maio 2019, em Lisboa. Partindo da praça do Martim-Moniz, a marcha subiu a avenida Almirante Reis até à Alameda. Propomos que oiça o som ambiente durante a leitura.


Diagrafia #2

Manifestações do 1º de Maio

Lisboa, Portugal

14h33

Venho da Praça da Figueira, pela rua João das Regras, na qual o chão está sujo, o lixo voa com a corrente de ar. No fim da rua, do lado esquerdo, está sentada uma prostituta vestida de vermelho.

Chego à Praça do Martim Moniz. Há polícia de trânsito. Só passa o elétrico 28 até à fila de turistas.

O centro da praça está inacessível devido a obras. Há chapas metálicas a circundar.

Observo tudo de cima porque subi uma rampa do lado direito que dá até ao 1º andar dos restaurantes e salões de beleza.

Ao fundo ouve-se o som, música que parece ser galega, oiço gaitas.

Vê-se o início da avenida Almirante Reis que está cheia, as pessoas dirigem-se para lá.

As fontes de água da praça estão ligadas.

Ao longe vejo bastantes bandeiras vermelhas.

Oiço turistas franceses. Há língua chinesa e nepalesa também.

Estou sentado ao balcão do 1º andar, em frente ao salão “Paraíso da Princesa”.

Um senhor barrigudo, com a cara do Ché Guevara na t-shirt, um cravo ao pescoço, boina do Ché, entra na “Padaria Portuguesa”.

O céu está azul, há sol e está calor.

Dois miúdos aproveitam a estrada sem carros da praça para andar de bicicleta. A corrente de uma delas saiu. Ajudo-os a resolver o problema.

Na paragem de autocarros, em frente ao Mercado do Martim Moniz, estão vários idosos sentados à sombra. Chega uma senhora junto de uma idosa sentada no banco da paragem. Pergunta-lhe se ela não se importa de ser delegada na Tercena. A idosa parece atordoada, mas diz que sim.

“Imigrantes contra a escravatura”, diz um cartaz. Está cá o grupo de imigrantes que esteve no desfile do 25 de abril. Têm a mesma faixa. Estão em frente ao Mercado. Alguns trouxeram instrumentos musicais, de percussão e de sopro, que me parecem vir do Bangladesh ou do Paquistão.

Há reencontros entre pessoas que metem a conversa em dia.

As faixas estão deitadas no chão, as bandeiras estão aos ombros e ao vento.

Todas as sombras das árvores são aproveitadas.

Uma senhora impõe autocolantes de um cravo e pede 1€. Se não lhe derem dinheiro ela tira o autocolante do peito.

A saída do metro do Martim Moniz, na praça, frente ao mercado, é um ponto de venda de cravos. Pessoas saem da boca do metro a olhar o telemóvel para perceberem onde devem seguir.

São distribuídos balões voadores às crianças. Ouvem-se alguns a rebentar.

Há muita gente de t-shirt vermelha.

Sentado na berma de um canteiro da praça, sinto o chão a vibrar com a passagem do metro.

Duas senhoras de idade estão à janela a observar o que se passa. Têm um chapéu de chuva para proteger do sol enquanto conversam. Ao seu lado e por baixo estão dois cartazes: “Aluga-se T3 – 963369655”.

Levantam-se as faixas do chão. Os manifestantes já estão nos seus lugares, em ordem, em fila.

“Democracia não é lotaria.”

Há coletes amarelos da CGTP.

Abril está muito presente: cores, t-shirts, cravos, boinas, faixas.

Há pais esperando à sombra com as crianças.

Ouve-se Zeca Afonso a cantar Grândola.

No início da avenida Almirante Reis, o segundo e o terceiro prédio do lado esquerdo parecem ter sido renovados recentemente. No lado oposto, do outro lado da rua, o segundo edifício está em obras grandes. Há andaimes e uma zona reservada do passeio, entre chapas, para armazenar tijolos e areias.

O vendedor de flores do Cais do Sodré está presente, vende cravos.

O Zé Povinho do 25 de Abril também marca presença neste 1º de Maio.

A polícia tem aqui uma esquadra, do lado esquerdo. Há carrinhas da PSP estacionadas. Duas delas, de porta lateral aberta, têm polícia de choque no seu interior. A maioria está a olhar para o telemóvel.

A Avenida Almirante Reis está mais cheia do lado esquerdo devido à sombra.


15h21, começa a marcha do 1º de Maio.

Uma senhora grita slogans ao microfone.

Começam os tambores tocados por jovens dos Karma Drums.

A CGTP lidera a marcha.

Uma jornalista da televisão entrevista quem está à frente a segurar a faixa.

As pessoas no passeio também reagem aos slogans.

“– Abril e Maio de novo / Com a força do povo”

Há fila no multibanco.

A loja chinesa de acessórios está aberta. O vendedor assiste à porta.

O Kebab vende cervejas.

Há muitos fotógrafos.

Pessoas também caminham no sentido contrário, em direção ao Martim Moniz. Passa uma senhora vestida de vermelho, com um monte de frutos de plástico na cabeça. Lembra-me aquela personagem…??

Um casal observa a marcha enquanto come gelados.

Há carrinhas da CGTP com grandes cartazes que juntam Abril e Maio.

O Zé Povinho desce a avenida com um braço no ar e a gritar “– Jamais serão vencidos!”

Há turistas e portugueses que não estão aqui para a manifestação. Alguns deles caminham calmamente, observam e sorriem.

Ao balcão do Bloco de Escarda, do lado direito da Avenida Almirante Reis, está uma mulher de vestido vermelho. Tem os lábios pintados de um vermelho forte e tem um cravo a esconder o decote. Na tela do balcão está escrito: “Lado a lado pelo que é de todos.” 

A polícia acompanha em marcha a pé, estão a uma distância de 20 metros uns dos outros.

“Anarquia do Barreiro”, está presente.

“Trabalhadores da Vasconcelos e Gonçalves em luta.”

Faixa de Alcochete.

Trabalhadores de Sesimbra com bandeira da Venezuela.

Uma mãe muda a fralda ao seu bebé deitado em cima de uma mesa de alumínio no passeio em plena marcha, junto ao Bangla Bazar.

Chegada ao Intendente.

A Marisqueira está fechada.

No chafariz do largo estão sentadas pessoas à sombra. Entre elas também estão senhoras que costumam prostituir-se na Calçada do Desterro.

A marcha não é muito densa, mas enche a avenida ao comprido.

Surge o Zé Povinho de novo mas com todo um aparato: há bonecos de esferovite pintado; há uma carrinha na qual foi fixado um boneco do Zé Povinho deitado e com má cara. A carrinha é da CCQC.

“Justo e necessário, o aumento do salário.”

A marisqueira Ramiro está fechada.

Dois amigos de cerveja na mão levantam as t-shirts e comparam barrigas. Um deles dá chapadas na barriga. Riem-se. 

O Primeiro Ministro, António Costa, está representado por um grande boneco caricatural. Junto a ele está uma senhora que empurra um carrinho de bebé.

Os turistas tentam passar com as suas malas pela multidão. Param e observam enquanto sorriem.

O líder dos percussionistas gere o grupo através de linguagem gestual, códigos através de sinais manuais.

Nos postes da Avenida Almirante Reis, já há cartazes para a Festa do Avante em setembro.

As camadas sociais mais baixas dos bairros, pelos quais passa a manifestação do 1º de Maio, não me parecem participar nesta mesma. Alguns deles vêm no sentido contrário à marcha, junto com os turistas.

O concelho da Moita está representado com carrinha e slogans ao microfone.

Pelo passeio do lado direito sobe um casal que me parece ser de ciganos da Roménia. O homem vai à frente, a mulher de saia, chinelos e meias cor de rosa, segue atrás. Ambos têm grandes sacos de plástico ao ombro.

Parece-me que há menos jovens do que no 25 de Abril. E menos diversidade de lutas também.

Os cafés da avenida enchem-se de pessoas que querem um refresco.

O Sindicato dos Professores da Grande Lisboa está presente.

Alguns slogans ao microfone têm sotaque brasileiro.

Passamos a Rua dos Anjos.

Os turistas do Banho Restaurante no Beautique WC Hotel estão na sua esplanada, protegidos por vidros transparentes. Sentados, observam a marcha enquanto bebem algo.  Há sorrisos e caras de amazement.

Os Trabalhadores do Metro estão representados.

A Fenprof está presente.

Passamos pela zona da Igreja dos Anjos.

O sol está muito forte.

“Dia 1º de Maio, dia do trabalhador, dia de festa sim, mas também de luta.”

A estrutura que simula um comboio, que tinha visto no desfile do 25 de Abril, está presente nesta marcha também. “Novos comboios na CP.”

Cada sindicato de trabalhadores, de cada empresa, tem as suas faixas e reivindicações.

À porta do edifício da Santa Casa da Misericórdia, em frente à Igreja dos Anjos, está um grupo de pessoas, alguns deles sem-abrigo. Há caras que revelam alcoolismo. Há uma cara que revela violência, um olho negro.

De microfone na mão, dois dos anunciadores de slogans discutem a cadência e o ritmo dos seus slogans. Todo o corpo revela a cadência.

MDM pela igualdade laboral.

“Lula livre – pelos direitos democráticos.” A senhora que vi há pouco com a fruta na cabeça, faz parte deste grupo de manifestantes, segura uma faixa.

Do outro lado da avenida, nas escadas da igreja dos Anjos, estão sentados sem-abrigos, ao sol e a observar.

Bandeira da Palestina.

O grupo de imigrantes faz toda uma festa. Há música e bailarinos que improvisam indo até ao chão. Oriente, Africa, América-Latina.

Pai e filho aproveitam a marcha na avenida para jogar basketball. O rapaz deve ter por volta dos oito anos e está vestido com equipamento dos Chicago Bulls.

Vê-se o final da manifestação.

“A investigação exige contratos permanentes.”

“Promessas não pagam rendas.”

“Solidariedade imigrante.”

A manifestação parece ter as suas divisões, entre partidos, entre organizações, entre lutas. Os lugares na manifestação colocam questões.

“Mais salário, menos assédio.”

No final vem a faixa do trabalho sexual, com bandeiras da UMAR.

Passamos por uma residência da Santa Casa da Misericórdia, do lado direito da avenida Almirante Reis. Os que lá residem estão à janela, observam a manifestação.

Caem cravos de um terraço do nº70 da Avenida.

Voam balões vermelhos.

Uma criança tem um capacete protetor de ouvidos. É amarelo fluorescente e diz Kids. Ao lado está a mãe, com uma grande bisnaga colorida presa na rede da mochila.

Uma senhora desce a avenida de rosa amarela na mão.

“Reformados, uma força que conta.”

Chegada à Alameda. As pessoas amontoam-se. Espalham-se pela relva, continuam os slogans da CGTP nas colunas espalhadas.

Todas as barracas de comida têm filas.

“Cafetaria dos Reformados.”

“Petiscos da conquista do 25 de Abril.”

Há fila para os gelados também.

As pessoas sentam-se na relva do lado direito da Alameda. Outras ficam de pé, junto às mesas das barraquinhas.

Ao fundo está a fonte da Alameda. A água jorra com força.

A Casa do Alentejo está representada.

Tasquinha do SIMAME VIP.

Há vendedores de balões e de máquinas para fazer bolhas de sabão.

No meio da relva instalou-se um senhor que vende ténis da moda.

Estão presentes quatro palhaços que se metem com as pessoas e vendem balões de moldar.

Do lado esquerdo da relva, se estivermos virados para a fonte, há um parque infantil cheio de crianças nos baloiços e nos escorregas.

A líder da Interjovem é chamada ao palco para discursar.

Já estão à venda as primeiras sardinhas do ano. Junto à tasquinha, o lixo verde está cheio e de tampa aberta.

Há uma mistura de cheiros no ar.

As famílias aproveitam a relva. Trouxeram lenços para se sentarem e instalar o picnic.

Uma família Sikh está sentada na relva, em círculo e a comer sardinhas.

Está instalado um atelier de pintura facial para crianças. Há fila.

Do lado esquerdo da relva, oposto às barraquinhas de comida, estão barracas que vendem livros e t-shirts.

“Justiça para quem nela trabalha.”

Líder da CGTP está ao microfone e diz que este 1º de Maio teve mais afluência que o último.

Referência ao massacre de Chicago.

“– Venezuela!” 2x

Há fila para os bebedouros e para as casas de banho também.

As brasas de uma churrasqueira improvisada são remexidas com uma pá.

Uma senhora idosa tem um deambulador e está com dificuldade em descer o passeio. Usa ténis prateados.

São 17h30. Na Avenida a marcha continua porque ainda não chegaram todos os grupos de manifestantes à Alameda.

Carrinhas da polícia fecham a marcha enquanto a fila de trânsito avança lentamente. Alguns carros escapam em direção às ruas paralelas.

Diagrafia #2

1º de Maio, Lisboa

Projeto ArtCitizenship

Alix Didier Sarrouy – CICS.NOVA

Diagrafia #1 – 25 de Abril de 2019

Diagrafias

A ideia nas Diagrafias é fazer etnografia de um dia específico, sobre uma comemoração pública ou uma iniciativa privada, a situar no tempo e no espaço. O exercício baseia-se na observação etnográfica num só dia, sem possibilidade de continuar a exploração do mesmo tema noutra ocasião. O resultado formal é um texto no qual se transcreve tudo o que se anotou no caderno de campo, junto com gravações de som ambiente.

A transcrição das notas etnográficas quer-se o mais próximo possível do original, ou seja, com poucas correções formais e factuais. Um dos intuitos é apenas de revelar um olhar etnográfico sobre as ações sociais durante um dia, sem que haja comentários ou aprofundamentos analítico-teóricos. É a revelação da forma mais crua de observações etnográficas, deixando ao leitor a liberdade de interpretar, de querer analisar e questionar.

A nível da forma, as Diagrafias estão próximas do que é feito em etnografia com “descrição densa” (Geertz, 1973), mas também dos documentários de Wiseman, Rouch ou Depardon, e da mais recente escrita da antropóloga Françoise Héritier (2012, 2017). O resultado não tem qualquer pretensão literária, embora nele se revele uma estética muito própria à escrita de notas curtas sobre interações sociais e sobre os contextos nas quais se realizam.

Para esta primeira experimentação de Diagrafia escolhemos as comemorações do 25 de Abril. Neste ano de 2019 celebram-se os 45 anos da Revolução dos Cravos. De forma a não me dispersar demasiado numa Lisboa que multiplica os seus palcos comemorativos, foram observadas duas situações especificas: 1) O Largo do Carmo, tendo em conta as “horas decisivas do 25 de Abril”, nomeadamente a chegada de Salgueiro Maia; 2) A Praça do Marquês de Pombal e a Avenida da Liberdade como pontos de partida e de passagem do desfile popular. Propomos que oiça o som ambiente durante a leitura.


Diagrafia #1

Comemorações do 25 de Abril 2019, Lisboa, Portugal

Na manhã de 25 de Abril, desço a Avenida Almirante Reis a caminho do Largo do Carmo.

Na Praça do Martim Moniz há uma longa fila de turistas para o elétrico n.º 28. O 28 parece ganhar ao 25.

Ao passar por uma travessa que vai dar à Praça da Figueira, cruzo-me com uma pequena fanfarra acompanhada de colegas que distribuem cravos às senhoras.

Chegando à Praça da Figueira oiço o nome do Salgueiro Maia. É um guia turístico que projeta a voz para o seu grupo.

Nesta zona de Lisboa e a estas horas num feriado parece-me que só há turistas presentes.

Paro num café para tomar algo antes de ir até ao Largo do Carmo.

No café, enquanto estou no balcão, oiço um empregado a falar com um cliente a propósito das imagens da televisão em direto que mostram as comemorações do 25 de abril no parlamento português: “– Estão lá todos porque o almoço deve ser à borla”; “– Mas é feriado e estão a trabalhar, é um exemplo”; “– Deve ser um cheiro a naftalina ali dentro”.


10h45 chego ao Largo do Carmo para poder observar o que vai acontecer 45 anos depois. Tenho em mente a seguinte hora decisiva do 25 de Abril: 11h30 – chegada do Capitão Salgueiro Maia com uma coluna da Escola Pratica de Cavalaria.

Largo do Carmo 25 Abril 2019

“– Olhóooo cravo!”, uma senhora vende cravos junto a um dos bancos de mármore onde pousou os ramos.

Ao seu lado está a homenagem feita a Salgueiro Maia. É um círculo em mármore, no chão, ao mesmo nível que a calçada. Em toda a volta desta placa circular foram pousados cravos, provavelmente pela vendedora.

Enquanto a senhora grita o seu slogan de venda, ouvem-se as rodas das malas na calçada. Há sobretudo turistas, em grupo e com guia. Outros estão em modo free-style familiar.

O quartel da GNR tem o seu museu aberto. À porta está todo um aparato com a tradicional guarda oficial nas suas casinhas às riscas verdes e brancas. Hoje só está um deles, o da direita. Mas ao lado estacionaram uma potente mota da GNR com um dos agentes fardados a fazer as ostes. Ele sorri muito, conversa em várias línguas e convida as crianças a sentarem-se na sua mota. Os pais tiram fotos, o agente mete a sua boina na cabeça das crianças.

Junta-se outro GNR com a farda e a bicicleta dos anos 1950’. Coloca-se ao lado do colega da moto e também convida os turistas a tirarem fotografias.

Junto à porta principal, entre as duas casinhas da guarda oficial, chega uma grande mascote: é um dinossauro verde com as iniciais GNR ao peito. É muito grande, animado por alguém que vestiu a fantasia. Atrai as pessoas, faz aquele olá com as mãos, típico destas grandes mascotes.

Uma senhora idosa senta-se no banco de mármore da vendedora para lhe comprar dois cravos. Está vestida de forma solene, tem uma malinha e uma bengala. Troca palavras respeitosas com a vendedora e compra dois cravos. Parte-lhes o caule para que caibam na sua mala de mão.

Surge o filho da vendedora de flores. Parece ter por volta dos 14 anos. Traz um molhe de cravos. Está com cara de chateado ou de cansado. Tem o casaco roto e os ténis velhos.

Os dois tipos de árvores do Carmo estão de primavera. Há muitas folhas verdes com vida graças a uma ligeira brisa. Os jacarandás estão mais tímidos, têm mais tronco do que folhas verdes e flores violetas.

Num dos bancos de mármore senta-se um homem de fato branco, cabelo e bigodes brancos, luva branca, calça preta e lacinho preto. Na mão tem um estandarte improvisado que segura uma grande bandeira de Portugal. O estandarte é uma junção entre dois cabos de cortina do duche e uma vara de cana de pesca no meio deles. Há anilhas apertadas para garantir que tudo se mantem no sítio. Na base da bandeira e no cimo dela estão ramos de cravos de plástico. Junto ao topo há uma buzina de mão, daquelas antigas para as carroças e bicicletas.

Sentado ao lado do senhor da bandeira está outro senhor. Conversam recordando Abril. Ambos se levantam e dirigem-se para o triangulo expositivo que mostra fotos da Revolução. Apontam e falam de uma imagem.

Render do guarda oficial na frente do quartel da GNR.

No largo estão três grupos de turistas: 1 de alemães, 2 de ingleses. Os respetivos guias têm diferentes formas de se expressarem. Uns falam com um ar convincente, outros são mais emotivos, um deles parece incarnar a personagem do capitão de Abril.

Enquanto alguns ouvem os guias, outros distraem-se com o telemóvel, com a vista dos arredores. Alguns aproveitam para se sentarem nos bancos de mármore e descansarem.

Chega mais um grupo de turistas. A guia procura um lugar onde se posicionar no largo. Olha para os outros grupos e parece curiosa para saber quem são os guias presentes. Busca uma distância com os outros e ao mesmo tempo um local que permita ver as diferentes coisas a que se vai referir durante a sua performance.

O convento do Carmo está em obras. Há uma tela que cobre toda a frente. Só se ouve o som do processo de restauro.

O prédio que faz esquina com a Travessa do Carmo também está todo em obras. Antes destas obras, que também estão protegidas por uma tela do tamanho do prédio, havia um café no rés do chão, tipo tasquinha portuguesa, no qual eu estava a contar ir ouvir algumas conversas dos “cotas” ao balcão.

A fonte ao centro do Largo do Carmo não tem água. Ao lado desta estão dois expositores triangulares com fotos de Abril.

O senhor da bandeira está a ser entrevistado por um canal televisivo.

Outro senhor, provavelmente de origem paquistanesa, está a preparar a esplanada do Restaurante Internacional. São doze mesas no total e um grande chapéu de sol.

Chegam novos grupos de turistas e há sempre os que estão em modo free-solo, a caminhar de cabeça para cima.

Os tuk-tuks cheios passam e estacionam em fila dupla de quatro piscas ligados. Os condutores saem e apresentam o local aos turistas que se mantêm sentados na bancada de trás.


Hora decisiva do 25 de Abril: são 11h20, Salgueiro Maia está prestes a sair do Terreiro do Paço com uma coluna da Escola Prática de Cavalaria. Seguindo as ordens de Otelo Saraiva de Carvalho dirigem-se ao Largo do Carmo.

No centro do largo do Carmo continua a estar o senhor da bandeira, a responder a jornalistas. Os turistas fluem. No meio de tudo, sob a calçada ainda húmida dos pingos que caem discretamente, está uma trotinete caída. Foi deixada assim, no chão, de lado, parecendo olhar para o céu e ter os pequenos braços abertos. Os turistas mais distraídos com o mesmo céu tropeçam na trotinete abandonada.

Uma jornalista de microfone na mão dá uma volta ao largo para sondar quem poderá entrevistar. Os nossos olhares cruzam-se.

Três empregados da Marisqueira instalam a sua esplanada. É maior, mais ornamentada. São 24 mesas no Largo do Carmo.

Uma senhora, turista, com cerca de cinquenta anos, vestida de marcas e com madeixas no cabelo, tira cravos dos que estão no chão em homenagem a Salgueiro Maia. Leva um e depois vem buscar mais dois. A vendedora de flores não viu e ninguém diz nada.

Junto à GNR o senhor da bandeira passa-a a uma criança, mas esta deixa-a cair para trás porque não aguenta com o peso.

A vendedora de flores está a ser entrevistada pela televisão.

São 11h30.

Há pingos de chuva.

Chega um grupo de ciclistas cinquentões. Têm bicicletas de montanha, equipamento fluorescente. As lentes dos óculos são arco-íris. Há humor entre eles. Um deles têm uma coluna de som na sua mala nas costas. Ouve-se AC/DC. Junto à fonte e ao expositor triangular, os ciclistas pousam para a fotografia. Dois deles deitam-se no chão. Há piadas, riem-se e o Benfica é mencionado.

Do lado da GNR está um guia a falar em Hebreu para o seu grupo.

A trotinete continua sozinha a meio do Largo do Carmo, deitada no chão.

Três jovens francesas, negras, sentam-se a meu lado num dos bancos de mármore. Conversam e riem-se.

“– Olhó cravo!”

Neste momento a parte central do Largo está vazia de pessoas, mas toda à volta estão grupos de turistas. Será que é o espaço para a chegada dos Capitães?

A trotinete foi levantada por uma mãe de dois filhos. Ouve-se o barulho da trotinete a cair de novo.

Chega mais um grupo de turistas. Desta vez reconheço a guia. É uma jovem atriz portuguesa que fez alguns papeis no cinema ou na televisão. Também me lembro que foi campeã de xadrez em Portugal. O seu grupo é grande. Fala em inglês e projeta muito a voz.

“– É cravo lindo!” x2

A jornalista da televisão continua a sondar, mas só vê grupos de turistas.

“– É cravo lindo!” x2

Continuam as fotos na mota do GNR. As duas barras da suspensão da frente são douradas.

Mais guias, mais tuk-tuks.

Chega uma carrinha da CML que vem buscar as grades de proteção que lá estavam arrumadas e que não parecem ser necessárias hoje.

A guia-atriz continua a projetar a voz, lutando com o apito das marcha atrás da carrinha da CML que estaciona no Largo.

A guia está completamente envolvida no seu discurso: nota-se pela fisicalidade; imita os passos da marcha dos soldados; as veias do pescoço saem; mexe os braços; abre as mãos; inclina a cabeça; levanta as sobrancelhas. Parece ter o grupo todo na mão, estão a olhar para ela sem se mexerem.

O centro do Largo do Carmo fica novamente vazio.

A trotinete continua no chão, deitada em L.

“– É cravo lindo!” x2


Marcha em celebração ao 25 de Abril de 1974

Avenida da Liberdade, partindo da Praça do Marquês de Pombal, Lisboa

São 14h40, subo a avenida na direção da Praça do Marquês Pombal. Está pouca gente, mas já há partes do cortejo prontas a unirem-se aos que vão descer. É o caso de um enorme cofre que tem a porta aberta e o planeta terra no seu interior. Pertence a um movimento ambiental.

No cimo da Avenida da Liberdade juntam-se grupos organizados de pessoas.

A comitiva do Partido Comunista está no cimo da Avenida, controlam o ponto de partida, têm faixas vermelhas que criam uma zona demarcada (um pouco como o uso das cordas em torno dos blocos nos carnavais brasileiros).

Por detrás está uma comitiva da Juventude Comunista Portuguesa. Há bastantes jovens.

Cartazes antirracismo.

Há turistas que também se juntam com um ar de curiosidade. Têm um cravo espetado no blusão.

Há carros com geradores e colunas em cima.

Três crianças das famílias da CGTP distribuem panfletos para o 1º de Maio. Meio tímidas e a rirem-se. Correm.

Chega um chaimite da Associação 25 de Abril. Há cabeças de “cotas” a sair do chaimite. Estão fardados, mas sem boina.

“– Documentos para todos”, grita um grupo de imigrantes junto à sua faixa principal, antes de começar o desfile.

“Reagrupamento familiar”, diz um dos seus cartazes.

Cada grupo tem os seus slogans escritos, “Somos todos imigrantes”, enquanto o Movimento de Alternativa Socialista escreve “Travar os privilégios das elites”.

Há pessoas que colaram cravos à base dos chapéus de chuva. Permite que estejam acima das cabeças na multidão.

Um grupo de turistas chineses tenta subir apressadamente a avenida pelo passeio esquerdo.

Uma bicicleta e uma trotinete estão deixadas no chão do passeio por onde tentam passar os chineses.

A Associação de Praças e a Associação de Sargentos já tem as faixas expostas no chão.

O Marquês de Pombal vai sendo lotado e organizado progressivamente.

“Palestina independente”

Passam oito policias de choque. Caminham em fila indiana. O que vai à frente tem um andar de cowboy com peito para fora. O polegar da sua mão esquerda está agarrado ao cinto, caminha de pés e de boca abertos.

Mélanchon est à Lisbonne.

O 25 de Abril parece-me ser uma marcha de pretexto para todo o tipo de contestações.

Famílias, passeio com crianças, contar e participar na história.

Todas as ruas dão ao Marquês. Há gente a chegar das várias avenidas e ruas adjacentes.

Há convívio entre os presentes. Ouvem-se piadas e humor.

“– Mais pra lá, mais pra lá”, dizem organizadores de forma a que fique tudo bem centrado.

“– Vocês, metam-se aqui atrás. Temos de distribuir isto”.

Membros da luta antirracista estão presentes. Cartaz diz, “Jamaica – Seixal”.

Para além dos cartazes para o desfile, toda a Praça do Marquês de Pombal está cheia de outdoors políticos a propósito das eleições europeias. Os partidos estão representados, os independentes também.

Uma senhora diz a outra, “– Olha, esta é a filha da Joana e faz anos hoje esta miúda”; “– Ai é? Parabéns!”

Uma marcha como esta tem algo de carnavalesco: tudo se solta, abrem-se possibilidades momentâneas, nem que seja o prazer de descer a pé a principal avenida da cidade.

Uma família aproveita o momento para fazer uma foto do seu coletivo. Também há muitas selfies entre amigos.

A relva da Praça do Marquês de Pombal também serve de campo de jogos para o Macaquinho do Chinês. Apoiado num dos pilares de um outdoor político, um adulto faz a chamada “1, 2, 3, Macaquinho do chinês”, enquanto crianças e jovens se vão aproximando dele.

Um coletivo construiu uma carruagem de comboio, com madeira e cartão. São precisas oito pessoas para levantar e mover a estrutura.

O senhor da bandeira, que vi hoje de manhã no Largo do Carmo, está presente. A alguns metros está um Zé Povinho a ser entrevistado pela televisão. Há “manguito” no final.

A marcha do 25 de Abril também me parece ser uma ocasião que alguns aproveitam para se mostrarem, para serem vistos. Algumas pessoas caminham como se estivessem noutro tipo de desfile. Olham nos olhos para confirmar que estamos a observá-las ou evitam todos os olhares tentando absorvê-los de queixo para cima.

Há um grupo de desportistas em cadeiras de rodas, junto com outros deficientes motores e mentais. Um dos rapazes com síndrome de Down distribui folhetos da Associação dos Pais e Amigos de Deficientes Profundos.

Uma pessoa diz a outra: “– Tou sempre a encontrar pessoas que já não via há bué!”

À frente do cortejo oficial estão os representantes do Partido Comunista Português, nomeadamente o seu Secretário Geral, Jerónimo de Sousa. Estão dentro de um grande quadrado vermelho de segurança. Atrás vem a JCP.

“– Abril em ação, direito à habitação”

“– Não às propinas”

Pais e mães têm filhos nos braços, nos ombros, ou de mão dada.

Uma jovem mulher com vestido preto tem um cravo ao peito e os lábios pintados com um batom vermelho forte. Caminha de forma confiante.

Dois coletes amarelos descem a avenida. Levam escrito, “Pour la liberté de manifester des gilets jaunes »

Há uma criança a andar de triciclo no meio do cortejo.

“– Mas que grande mistura de gente”, diz uma senhora.

Uma mãe empurra o carrinho, o bebé tem uma chupeta.

Duas senhoras a falar entre si: “– E a Francisca?”, “– Ficou numa quinta, está podre”, “– Eu cheguei ontem de Inglaterra”.

Muitas famílias presentes.

O centro da avenida tem bastantes caules de cravos no chão. Flor na mão, caule no pé.

Uma senhora que olha o cortejo passar diz “– Esta gente não almoçou, tá tudo muito fraco”; mete as mãos nos ombros da filha que tem por volta de sete anos e canta “– Grândolaaa, vila moreeeena”; “– Oh mãe, não quero”.

Marcha um grupo ambientalista. Duas crianças vão à frente, puxando uma rede verde cheia de lixo.

A classe média/alta parece estar bastante presente. Vivem o desfile em família. Há cães também.

“Solidariedade com Cuba”.

O Movimento Democrático de Mulheres está representado assim como a Plataforma Portuguesa pelo Direito das Mulheres.

“Força abril, envelhecer com direitos”

Uma senhora de idade trouxe uma proveta com água para pôr o seu cravo.

“Reformados de Almada saúdam o 25 de Abril”

“– 25 de Abril sempre”, refrão gritado ao microfone ligado ao carro com as colunas. A jovem que tem o microfone grita com todo o corpo. O corpo salienta cada sílaba.

“Fim da portagem na A1”

O cofre do movimento pelo ambiente que vi estacionado numa perpendicular à avenida da Liberdade está prestes a juntar-se ao cortejo e aos colegas responsáveis.

Jean-Luc Mélanchon está com a comitiva do Bloco de Esquerda.

Cartazes da Joacine pelo Partido Livre. “– Primeira mulher negra candidata à Europa”, diz uma pessoa ao meu lado.

“– Espanha, Palestina, Brasil e Portugal, a nossa luta é internacional”

Confrontos entre senhores que seguram uma grande faixa e um membro da organização do cortejo. Há empurrões.

Passa um senhor que parece hindu e que toca o seu tambor tradicional, seguro por uma corda à volta do pescoço, tocado na diagonal com a mão esquerda e uma longa baqueta fina na mão direita.

Ouve-se samba a aproximar-se.

Uma ambulância tem de passar em urgência de um lado ao outro da avenida, cortando o ritmo do cortejo. A polícia hesitou, mas membros da organização ajudaram.

“– Lula livre”, diz uma jovem que vai impondo autocolantes nos peitos das pessoas sem que estas possam expressar a sua aceitação.

Ouvem-se os tambores dos Toca a Rufar. Incluíram um senhor de cadeira de rodas que leva um tambor.

Passam hippies a descer a avenida com um caminhar apressado. Levam uma garrafa de vinho branco na mão, sem rolha. Riem-se.

Uma carrinha promove um sistema para tirar ervas só com água, sem químicos.

“Europa!”

“Autodeterminação da Catalunha”

O cortejo está na sua cauda. Há mais espaço entre cada movimento. Todos os outros já estão nos Restauradores e no Rossio.

“Liberdade aos presos políticos”

“Libertação animal”

Os que ainda aqui estão já se focam no telemóvel.

O Festival Feminista de Lisboa tem samba ao vivo.

O fecho do cortejo é feito pelo movimento Iniciativa Liberal.

Um pai tem o filho adormecido ao colo. Sentou-se num dos bancos verdes do passeio da avenida a observar o fim do desfile.

Ainda há pessoas pousadas nos monumentos da Avenida da Liberdade e na relva que os circunda. Os lugares proibidos são domados.

Dois skaters de longboard aproveitam o asfalto livre para circularem livremente e fazerem figuras circulares entre as poucas pessoas que ainda vão descendo a avenida.

Diagrafia #1

25 de Abril, Lisboa

Projeto ArtCitizenship

Alix Didier Sarrouy – CICS.NOVA

Agradecimento especial a Alexandre Castro do fimdomeio.com, pela ajuda na formatação e na criação digital das Diagrafias.

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