Juventude e as Artes
da Cidadania:
práticas criativas,
cultura participativa
e activismo

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III COMbART, “Arte, Activismo e Cidadania”

Caros e caras investigadores, artistas e ativistas.

A III edição da Conferência Internactional COMbART, integrado no projeto “ArtCitizenship: Juventude e as artes da cidadania: práticas criativas, cultura participativa e activismo”, irá decorrer nos dias 30 e 31 de maio de 2022, na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, na cidade do Porto, Portugal.

Submissão de propostas: https://combart.eventqualia.net/pt/2022/inicio/

Datas importantes:
Submissões: até 15 de janeiro de 2022
Comunicação dos resultados: 30 de janeiro de 2022
Inscrições: até 30 de março antecipada (tardia até 30 de abril) de 2022
Programa final: 15 de maio de 2022
Congresso: 30 a 31 de maio de 2022

Vemo-nos no Porto!

Seminário: Corpos performáticos e engajamento cívico

Organizado por Ricardo Campos (CICS.Nova) & Nicolle Vieira (ICNova)

O seminário Corpos performáticos e engajamento cívico enquadra-se nas atividades desenvolvidas pelo projeto Artcitizenship (financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia) que procura pesquisar campos não-institucionais e não-convencionais de participação cívica e política por parte dos jovens. Neste encontro pretendemos debater o papel do corpo e da performance como atos de participação cívica e de expressão individual e coletiva. Partimos da ideia do corpo enquanto instrumento poderoso de comunicação, de engajamento e de ligação emocional entre as pessoas, sendo igualmente um recurso político fundamental. Corpos que se manifestam, que protestam, que ocupam, que se exibem. Distintos reportórios indicam-nos como as pessoas mobilizam os seus corpos para a ação. No campo artivista, distintos agentes, têm privilegiado a dança, o teatro ou a performance, como veículos de expressão.

Local: Colégio Almada Negreiros, Campus da Universidade Nova de Lisboa de Campolide, Sala 217

Data: Terça-Feira, 23 de novembro, das 10:15 às 12:30

Participantes:

Rita Barreira (NOVA-FCSH)

Samara Azevedo (Faculdade de Belas Artes da ULisboa)

Ana Vitória (Faculdade Angel Vianna e FAV/Brasil)

Susana Gaspar (NOVA-FCSH)

Debatedores:

Cláudia Madeira (ICNOVA, NOVA-FCSH)

Paulo Raposo (CRIA, ISCTE_IUL)

 

Rita Barreira

Doutoranda em Estudos Artísticos na NOVA-FCSH com o projeto PIGS: Espaços de Exaustão como Prática Artística no Sul da Europa, é também investigadora no Instituto de História da Arte (IHA- FCSH). A sua pesquisa é interdisciplinar, foca-se na estética das práticas espaciais contemporâneas, e circula nos tópicos da cultura independente, ativismo, urbanismo e espaço público. Escreve e colabora com artistas, espaços de arte independentes, com associações culturais e civis.

Título da comunicação: “Ma Vie Va Changer:  o memorial como  protesto  processo”

Ma Vie Va Changer é um livro de artista publicado pela Ghost Editions pela primeira vez em 2015, com autoria de Patrícia Almeida e Davide-Alexandre Guéniot. Faz parte de uma constelação de trabalhos de Patrícia Almeida que sem uma unidade formal entre si, percorrem e documentam a catástrofe financeira, Fukushima, a Primavera Árabe, o Occupy, e a intervenção da TROIKA em Portugal. Este livro colige recortes dos media que cobrem o período de 2011 a 2013, e situa-os com um álbum de família dos autores, construindo-se como um arquivo visual deste tempo histórico a partir de um espaço íntimo e pessoal. Propõe debater o Ma Vie Va Changer como um memorial que se constitui entre o protesto político e o processo artístico. A estética do cut-up e diy levanta a plasticidade ao processo da investigação documental e da montagem iconográfica. Por sua vez, o processo artístico expande o protesto político com novas possibilidades, em concreto com uma performatividade documental que critica, denuncia e nos afeta. Com o protesto como processo, Ma Vie Va Changer sustém uma forma aberta à participação, onde se deseja que o documento do passado infira uma crítica presente na construção de um projeto futuro, um memorial em em   protesto  processo.

 

Samara Azevedo

Atriz, performer multimédia, produtora cultural, ativista pela democracia e professora. Doutoranda em Belas Artes, área de Artemultimédia pela Faculdade de Belas Artes da ULisboa, bolseira pela Reitoria da ULisboa. Mestre em Artemultimédia, área de Audiovisual pela mesma instituição. Bacharel em Artes Cênicas com ênfase em Interpretação Teatral pela Universidade Estadual de Londrina – PR – Brasil.

Título da comunicação: “Entre a Arte e o Ativismo: o corpo como criador comprometido.”

Esta comunicação visa apresentar os estímulos conceituais e contextuais que culminam na obra videoperformativa A Galinha dos Óvulos de Ouro (2020). A partir do conceito de escultura social do professor, artista e ativista Joseph Beuys e da ideia de levante do filósofo, crítico de arte e professor Didi Huberman, pretende-se discutir de que modo um evento histórico-social escolhido como disparador é reinterpretado esteticamente pelo corpo criador. Corpo este, que transita entre a sala de aula, o ativismo político e a elaboração artística, e que se apresenta comprometido com uma atenção formal estruturada, investida de um posicionamento crítico.

 

Ana Vitória

Pós Doutora em Artes da Performance (Faculdade de Motricidade Humana da Universidade de Lisboa – Portugal) e PhD. em Artes – Performances do Corpo pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO/Brasil). Coreógrafa premiada e diretora artística da Cia Ana Vitória Dança Contemporânea fundada em 1997 com mais de 33 obras criadas e digressões nacionais e internacionais. Bailarina e artista visual tendo criado várias Instalações Performáticas, site-specifc e Vídeos de Dança com foco nas poéticas corporais, autoperformance e memórias autobiográficas. Coordenadora Adjunta do Mestrado Profissional em Dança na contemporaneidade – PPGPDAN da Faculdade Angel Vianna e do Curso de Pós-Graduação em Preparação Corporal para as Artes Cênicas – FAV/Brasil e Investigadora colaboradora pelo Inet-MD (FMH-UL-Portugal), Sens-Lab (Canadá) e NEPAA (Núcleo de estudos da Performance Afro-Ameríndia – Brasil). Desde 2018 vive em Portugal onde desenvolve seu trabalho artístico-pedagógico sobre poéticas autoperformativas. (www.anavitoria.com.br)

Título da comunicação: “A dança contemporânea e a performatividade como mecanismos disruptivos de criação e resistência na contemporaneidade.”

As artes performativas, na transição para o período que reconhecemos hoje como pós-modernidade, trouxeram algumas questões interessantes e inquietantes para o sujeito contemporâneo, e para os modelos estéticos e éticos que a arte moderna produziu até então. Como a tão presente “fragmentação” das narrativas que em si nos parece estéril como tentativa de retenção do presente do artista que já não deseja se comunicar (ou não consegue pelas formas disponíveis), mas, por outro lado, permite que se observe como os discursos corporais e sua dramaturgia podem se construir em outros sentidos além de encadeamentos lógicos-causais tradicionais, já exaustivamente vistos e criticados. Partindo dessa ideia, nos aproximaremos de duas personalidades da dança contemporânea Angel Vianna e Anna Halprin que contribuíram para pensar sobre o tema que interessa à nossa arte: quais mecanismos de criação envolvem o corpo-em-arte na condição pós-moderna e em que termos? Quais as contribuições que as artes performativas trouxeram para o sujeito contemporâneo e a pedagogia do corpo em suas diversas opções técnicas e estéticas? Aqui a performance também constitui a lente metodológica que permite que pesquisadores analisem eventos de uma vida como performances, reitera Diana Taylor. Obediência cívica, resistência, cidadania, gênero, etnicidade e identidade sexual, por exemplo, são ensaiados e performatizados diariamente na esfera pública. Entender esses itens como performances, sugere que a performance também funciona como uma epistemologia. A prática incorporada, juntamente com outras práticas culturais associada a elas, oferece uma maneira de conhecer e subjetivar o sujeito contemporâneo.

 

Susana Gaspar

Doutoranda em Estudos Artísticos – Arte e Mediações na NOVA-FCSH. Tem uma pós-graduação em Direitos Humanos pelo IGC/Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. Mestre em Educação Artística – especialização em Teatro na Educação, pela Escola Superior de Educação de Lisboa e licenciada em Ciências da Cultura – com especialização em Comunicação e Cultura, pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. É atriz e encenadora de teatro, gestora de projetos sociais e comunitários e, desde 2016, leciona no Instituto Politécnico de Lisboa – Escola Superior de Educação, no domínio de Teatro. O seu projeto de investigação denomina-se “Arte e Direitos Humanos: a influência de práticas artísticas na agenda dos direitos humanos (de 2011 à atualidade)”.

Título da comunicação: “O corpo enquanto protesto, o protesto enquanto ato performativo”

Com o aumento de atropelos aos direitos humanos em vários países e contextos, a nível global, nomeadamente ao nível restrições da liberdade de expressão, artistas e coletivos vão sendo vítimas de perseguições devido às suas criações artísticas. O papel do corpo enquanto ato de participação cívica é incontornável, sendo recorrente a associação entre as práticas artísticas, incluindo performance, ao ativismo, seja no âmbito de protestos e ações de rua, seja como ato exclusivamente performativo. O corpo que protesta torna-se o agente principal para transmissão de mensagens políticas e cívicas, para a defesa dos direitos humanos e liberdade artística. Neste âmbito, propomo-nos olhar para três casos da América Latina: o coletivo Labo Ciudadano, da Venezuela, que exploram novas formas de ativismo através de uma abordagem artística para o protesto não-violento; o Coletivo Artístico LASTESIS, oriundo do Chile, que se tornou mundialmente famoso por uma vídeo-performance a denunciar a violência de género sistémica e o caso da artista queer Myth Drag Queen, da Colômbia, que defende a visibilidade dos corpos queer em protestos. Estes casos são enquadrados na investigação em curso “Arte e Direitos Humanos: a influência de práticas artísticas na agenda dos direitos humanos (de 2011 à atualidade)”, para Doutoramento em Estudos Artísticos.

Cenas do Gueto, Mocho Tá na Casa

À boleia da street art, a Quinta do Mocho soube dar a volta aos estereótipos, ressignificando a vida no gueto para exaltar as qualidades do território e de seus habitantes. “Cenas do Gueto, Mocho Tá na Casa” desmonta os discursos de que o bairro não tem cultura, talento, humanidade, ao mesmo tempo que aponta o dedo à exclusão, ao racismo, à violência policial, à pobreza. Gueto é cidade. Cultura se faz no gueto.

Este seriado de 27 episódios dá a conhecer os habitantes, os artistas e a história da Quinta do Mocho. São micro-documentários etnográficos realizados pelo antropólogo e sociólogo Otávio Raposo, editados pelo antropólogo Filipe Ferraz, e com conceção gráfica da antropóloga Gabriela Leal.

Esta série está integrada no projeto de investigação Artcitizenship, que pesquisa “territórios não-institucionais de construção da cidadania e de participação na esfera pública”, procurando compreender os elos entre arte, criatividade e agência política.

“Cenas do Gueto, Mocho Tá na Casa” é um projeto financiado pela FCT, uma parceria CICS.NOVA, NOVA FCSH, CIES-Iscte e CRIA. A produção é da Associação Wamãe I Antropologia Pública.

 

Facebook: https://www.facebook.com/cenasgueto

Instagram: @cenasdogueto

 

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Trailer – Cenas do Gueto, Mocho Tá na Casa

 

 

 

Destaq’Art – Artes da cidadania em destaque

Esta é uma rubrica semanal do ArtCitizenship em que damos visibilidade ao trabalho criativo de autoras e autores que têm colaborado de forma mais próxima connosco. O projecto criativo é destacado na medida em que corresponde a uma forma de exercício de cidadania e de participação política em torno de certas causas sociais.



#24 – Diogo Silva

Activista por justiça climática no colectivo Climáximo, desde 2019, e perito em fundar e afundar projectos. No colectivo artivista Art for Change fez parte da organização do CineClima (mostra aberta de cinema climático durante a semana da Greve Climática Global 2019, com +40 sessões gratuitas, de Chaves a Faro), da intervenção artivista durante o Camp-in-Gás (acampamento contra a exploração de gás fóssil, na Bajouca, em 2019), do podcast Clima e…, do Galp Must Fall Live (live no instagram durante a ação Galp Must Fall, com artistas de países colonizados por Portugal, contra a exploração de gás fóssil em Moçambique, pela Galp) e da Pandemia Artivista (programa de lives artivistas no instagram) – sempre em colaboração com outras organizações como o Climáximo e a Greve Climática Estudantil. Criou ainda o podcast Are we Enough, com a Fundação Friedrich Ebert; foi produtor e locutor do podcast Planeta B, da campanha Empregos para o Clima; e colaborou com a turma de cerâmica da Escola Secundária Artística António Arroio. Hoje, quase só faz ativismo sem ser por meios artísticos, e gostava de ser um pouco mais artista. Talvez vá a tempo.
follow Diogo Silva:  @diogoansilva   |  facebook   |   twitter
follow Climáximo:  @climaximopt   |  facebook   |   twitter   |    site   |   empregos-clima

 


#23 – Maria Giulia Pinheiro

Maria Giulia Pinheiro é poeta, dramaturga, performer, roteirista, pesquisadora, curadora e ativista social.  Atualmente, está em circulação com a “A Palavra Mais Bonita” (@apalavramaisbonita).  Em 2020, ficou em 4. Lugar na Copa do Mundo de Poetry Slam, da França, representando Portugal. Criadora e organizadora do ZONA Lê Mulheres (#zonalemulheres),  do Todo Mundo Slam (@todomundoslam), do  “Ciranda- Jogo de Palavra Falada” (@cirandajogodepalavra) e da “Ginginha Poética” (@ginginha_poetica).  Coordena o Núcleo Feminista de Dramaturgia desde 2016. Hoje o Núcleo de Dramaturgia Feminista (@nucleodedramaturgiafeminista) acontece online, conta com 8 turmas, lançou o livro “Mentiras e outros pequenos furtos: um inventário da verdade” (Editora Urutau, 2021) e o podcast “Corte Perfeito Para”. As inscrições para o Núcleo de Dramaturgia estão abertas para 2022 através do link http://www.mariagiuliapinheiro.com/nucleo-feminista-de-dramaturgia

 

follow:  @mariagiuliapinheiro  |    facebook    |   site

 


#22 – Melissa Rodrigues

Melissa é performer, arte-educadora, curadora e ativista. Nasceu na cidade da Praia, ilha de Santiago, Cabo Verde. Cresceu entre a Linha de Sintra e Lisboa. Vive no Porto. Afrodiaspórica, Afropean, Afrofuturista. Participa frequentemente em projetos colaborativos e interdisciplinares que relacionam arte, experimentação e ativismo. Como investigadora nas áreas da Performance e da Cultura Visual tem desenvolvido pesquisa em Imagem e Representação do Corpo Negro em colaboração com artistas visuais, cientistas sociais e performers. Integra a Associação Cultural Rampa, o InterStruct Collective, o Núcleo Anti-Racista do Porto e a UNA – União Negra das Artes.

Crédito imagem: Still vídeo performance CORONAS IN THE SKY, Not a Manifesto! an Essay on Afrofuturism and Liberation, 2020, Melissa Rodrigues

follow:  @meliss_rodrigues  |  site

 


#21 – Luca Argel

Luca Argel (Rio de Janeiro, 1988), é graduado em música pela UNIRIO e mestre em literatura pela Universidade do Porto. Vive desde 2012 em Portugal, onde trabalha como cantor e compositor. Tem livros de poesia publicados no Brasil, em Espanha e em Portugal, e quatro álbuns lançados, o último dos quais, “Samba de Guerrilha” é resultado de uma pesquisa continuada sobre a história política do samba.
follow: @lucargel  |  facebook  |  youtube  |  site

#20 – Rui Eduardo Paes

Escritor, crítico de música, curador e formador, entende o trabalho que desenvolve nas suas variadas vertentes como serviço comunitário e serviço público. Partilha com Maria do Mar a direcção artística do Queer Fest e está envolvido na Open Call Amoras Silvestres, iniciativa de incentivo e promoção de artistas queer emergentes. É o editor da revista online Jazz.pt, programador na SMUP e no ciclo Jazz no Parque,  da Fundação de Serralves. Os seus mais recentes livros têm sido publicados pela Chili Com Carne, entre eles se destacando os dois volumes de “Bestiário Ilustríssimo”, “‘A’ Maiúsculo com Círculo à Volta”, “Anarco-Queer? Queercore!” e “O Fagote de Shatner”. Tem ainda actividade intermitente como artista sonoro/performer, enquanto elemento do projecto Astronauta Desaparecido, com dois álbuns editados, “Sound & Fury” (duas edições, Tragic Figures e A Besta) e “Virus From Outer Space” (A Besta).

follow: Rui Eduardo Paes  |  Queer Fest  |  @queerfestlx  |  Open Call Amoras Silvestres  |  @opencallamorassilvestres

 

[ Crédito da foto: Rui Silva ]

 


#19 – Matilde Real

As histórias são bálsamos, armas de fogo, subterrâneos do corpo. Procuro histórias pelo dia-a-dia dos outros: os seus lugares, movimentos de trabalho, as vidas que me contam e que criamos em conjunto. Dessas colaborações nascem novas histórias, instalações, rituais reais-inventados. Tenho trabalhado em escolas, numa prisão, num centro de refugiados e de momento em estufas de frutos vermelhos do concelho de Odemira, com migrantes da Índia e do Nepal.

Contacto: matildereal@hotmail.com

[ Crédito da foto: João Mariano ]


#18 – Raquel Lima

Raquel Lima (Lisboa, 1983-) é poeta, performer, arte-educadora, licenciada em Estudos Artísticos e doutoranda em Estudos Pós-Coloniais, em torno da oratura, escravatura e movimentos afrodiaspóricos. Colabora com o projeto de investigação “Post-Archive: Politics of Memory, Place and Identity” da FLUL e é membro do conselho consultivo do projeto de investigação “(DE)OTHERING – Desconstruindo o Risco e a Alteridade: guiões hegemónicos e contra-narrativas sobre migrantes/refugiados e “Outros internos” nas paisagens mediáticas em Portugal e na Europa” do CES. Tem apresentado o seu trabalho poético em vários países da Europa, América do Sul e África em eventos de literatura e performance, e lançou, em Outubro de 2019, o seu primeiro livro e áudio-livro de poesia intitulado Ingenuidade Inocência Ignorância (BOCA e Animal Sentimental). Integra, enquanto militante antirracista, o NAC – Núcleo Antirracista de Coimbra, a Yanda Panafrikanu e a UNA – União Negra das Artes.

follow: @raquel_palmira  |  facebook  |  youtube  |  poetry book  |  CES

 


#17 – António Jorge Gonçalves

Nasceu em Lisboa e vive desenhando-se a si e aos outros.

Através de novelas gráficas, cartoons políticos e espectáculos de desenho ao vivo

Chega todos os dias um bocadinho mais perto, um bocadinho mais longe.

follow:  @ajg_desenhador  |  facebook  |  site

 


#16 – Mynda Guevara

Vinda do bairro da Cova da Moura em Lisboa, Mynda Guevara carrega no nome e na atitude uma sede de revolução que está intimamente ligada ao papel ainda muito minimizado das mulheres no rap. O seu Rap , em crioulo , como forma de expressão verdadeira e emancipatória, tem vindo a conquistar uma posição de respeito, por força de uma lírica em reflexo do seu papel enquanto mulher, afro-descendente e rapper no seio de uma sociedade estratificada.

follow: @myndaguevara_oficial  |  YouTube

 


#15 – Rambóia com Moderação

“Rambóia com Moderação” é um projecto dos poliamorosos Cris, Mariana e Bruno, que se foca em não-monogamias, relacionamentos e sexualidade. Têm um podcast onde falam dos tópicos de forma informal, bem como uma página de instagram onde divulgam informação, publicam memes e mostram um bocadinho de como é viver fora da monogamia.

follow:  @ramboiacommoderação  |   linktree

 


#14 – Silvia Rodrigues

Como artista e ilustradora, o seu objetivo é criar imagens que promovam a saúde mental, uma relação descomplicada com o corpo e contar narrativas de mulheres. O seu trabalho é audaz e colorido. A ilustração tem sido o seu foco principal há mais de 9 anos. Estudou Design de Comunicação (FBAUL) e Ilustração e Banda Desenhada (Ar.Co.). É Mestre em Pintura (FBAUL, 2017). Publica e expõe regularmente em colectivas internacionais e a solo.
follow:  @silviarodrigues.me  |  www.silviarodrigues.me  |  hello@silviarodrigues.me

 


#13 – Maria Kopke

A luso-brasileira Maria Kopke é apaixonada por música, escrita, e feminismo, e se tiver que que escolher, escolhe os três. Mestranda em Estudos Comparatistas pela FLUL, formada em canto pela EAMCN e com experiência em Teatro Musical, olha para o mundo pelo filtro das questões de género, e narra-o em canções, ensaios, e contos. “Back to the Kitchen” é um de seus trabalhos mais recentes. Este projeto apresenta uma série de entrevistas realizadas pela artista ao longo de 2020, onde abordou diferentes temas relacionados com género e feminismo.

follow:  @mariakopke  |  Back to the Kitchen

 


#12 – A lake by the mõõn

Num manifesto contra as narrativas fatalistas e tech-optimistas sobre a crise climática, “A lake by the mõõn” convida-nos a prestar uma atenção profunda ao que o som tem para nos mostrar sobre o estado miserável do nosso planeta. Apresenta-nos uma palete sonora toda criada a partir de sons de animais em vias de extinção, oferecendo uma nova oportunidade de ouvir os sons de dor e desespero dos seres vivos que mais sofreram com a crise climática. O produtor e ativista Caldense transporta assim as vozes destes animais dos seus ecossistemas em colapso para um novo habitat sonoro de música electrónica orgânica. Na esperança que a sua música encoraje e seja um lembrete pro público que temos que lutar AGORA por uma vida digna para TODOS os seres vivos que habitam a Terra.

follow: @alakebythemoon  |   bandcamp  |  facebook

 


#11 – Campanha Linha Vermelha

A Campanha Linha Vermelha, desenvolvida pela Academia Cidadã, é uma campanha que nasceu em 2016 para sensibilizar a população para a exploração de petróleo e gás em Portugal. Durante 4 anos, tricotaram e desafiaram pessoas por todo o país, a tricotar Linhas Vermelhas. Estas Linhas Vermelhas simbolizam o limite de 1.5ºC de aquecimento de temperatura média do planeta, que não devemos ultrapassar. Representa um limite.

Em 2016 quando a campanha começou existiam 15 contratos para prospecção e exploração de combustíveis fósseis em Portugal. Hoje, todos os 15 contratos foram cancelados. A Campanha Linha Vermelha utiliza as artes manuais de tecer (tricô e crochê) para conversar com pessoas que normalmente não estariam tão familiarizadas com o tópico da Justiça Climática.

Agora, que cumpriu o seu objectivo, a Campanha Linha Vermelha está a reformular os seus objectivos para entender de que maneira poderemos continuar a ser úteis ao movimento pela justiça climática.

follow: @campanhalinhavermelha  |  site  |  facebook  |  youtube

 


#10 – Sleeperly

Arte de maquilhagem é, na sua essencia e paradoxalmente, revolucionária. Pode e não pode ser vendida. Na sua verdadeira forma o meu trabalho muitas vezes já desapareceu na altura em que é consumido. Lavado da minha cara, permanece apenas como uma representação bi-dimensional incapaz de capturar a verdadeira experiência do original. No entanto produtos de maquilhagem podem ser comprados, uma foto do meu trabalho pode ser impressa e vendida e tu podes pagar-me para te maquilhar, mas a photo não é o meu trabalho e a tua cara também vai ser lavada eventualmente. A maquilhagem está inserida numa industria com margens de lucro absurdas, enquanto que a verdadeira criação artistica gerada com maquilhagem não pode ser comprada ou mantida. Desta forma, faz pouco do capitalismo. É a derradeira forma de expressão artistica anti-capitalista.

follow: @sleeperly


#9 – Alex a.k.a. Plant Boy

O meu nome é Alex e sou o Plant Boy.

Algo muito importante para mim é expressar com a minha arte os meus problemas, mas também as minha vitorias como uma pessoa trans. A minha arte é normalmente centrada em stresses diários e lutas internas. Ao expor esta parte de mim que é tão privada espero ajudar pessoas a sentirem-se menos sozinhas. A maior parte das minha obras são extremamente pessoais, mas também gosto de fazer alguns comics engraçados sobre coisas do dia a dia. No fundo a minha arte é quase como um diário que partilho com todes.

follow: @plant__boy  |  https://thatplantboy.bigcartel.com/


#8 – nëss

nëss é um writer/singer não binárie, instrumentiste autodidata da Linha de Sintra. A partir de suas experiências que navegam através da dor, do perdão e da autodescoberta, nëss dá-nos a sua visão das suas memórias de infância em perspectiva actual, como forma de curar a si mesme. nëss já passou por vários palcos em Lisboa (ZDB, Damas, Musicbox, entre outros), Porto (Pérola Negra) e ainda o festival ITHAKA em Medellin, Espanha. Com um EP já lançado, nëss embarca num novo projecto liricamente mais directo com uma nova sonoridade de indie/folk cruzando com synths de dream pop. “restrictions when you try to make it and be” fala sobre o processo de descoberta como pessoa queer e sobre a sua visão acerca desse mundo.

follow: linktreesoundcloud | bandcamp | instagram


#7 – Raquel Smith-Cave

Raquel Silva aka Raquel Smith-Cave (Funchal, 1988), ativista queer feminista, poeta, investigadora, dj (Lobotomy), drag king (Joaquim Fónix) e uma apaixonada por todos as artes. Licenciada em Literatura e Cultura Inglesa/Norte-Americana, neste momento é mestranda em Sociologia no ISCTE e trabalhadora a recibos verdes. Em 2011 começou a editar de forma independente a CuntRoll Zine, uma fanzine colaborativa queer feminista, e desde então foi integrando vários coletivos/grupos activistas. Impulsionadora e co-fundadora do Festival Feminista de Lisboa e do projecto cultural Queer As Fuck, no qual desde 2017 vem criando espaços de ocupação, união, visibilidade, conhecimento e celebração da cultura e lutas LGBTQIA+ através de perspectivas interseccionais, eventos culturais e partilha de experiências não normativas.

follow: @raquelsmithcave  @queerasfuck.pt  @joaquimfonixx   https://www.facebook.com/takecontroll


#6 – Tinta dulce

Tinta dulce,

Disputando narrativas nas artes e nas ruas desde 2009, imigrante de Abya Yala, nómada, artista plástica, muralista, tatuadora, ilustradora e bruxa rabogenta, utiliza as artes gráficas como arma de resistência, como um conjuro para chamar e juntar as criaturas que resistem e existem a volta. Migrada em Portugal desde 2015 colaborou em quanto coletiva Las Piteadas com vários movimentos e organizações ativista com a criação de material gráfico para manifestações, concentrações, festivais, etc. Hoje em dia anda jogando bombas-sementes discursivas para derrubar o colonialismo incrustado em todo lado com projetos como “Resista Sur” e “Bruxitude”.

Instagram:   @tinta_dulce    @tinta_dulce_fareniente   @laspiteadas    @resistasur


#5 – Inês Tartaruga Água

ToxiCity – Ruptural performance/collective action for compost-humans

Inês Tartaruga Água (Válega, 1994) apresenta-se como artista desde os 5 anos, experimenta a academia na especialização de pintura (2012) e obtém grau de mestre em escultura (2019) pela Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto. Artista multidisciplinar, centrada nas questões da ecologia profunda e da biopolítica, exploradora sonora e adepta da filosofia DIY bem como de práticas colaborativas e participativas em espaço público. Participa em exposições colectivas desde 2013, com destaque para a “XIII Bienal Internacional de Cerâmica Artística” (Aveiro, 2017), “Убежище / Suoja / Shelter Festival – Laboratory” (Helsínquia, 2019), «48 часов Новосибирск» (Sibéria, 2019), ou “Soundscapes” (Bahrain, 2019), e tem a sua primeira residência artística individual “Méhtēr: Matéria, Forma e Transformação” no Museu Júlio Dinis em Ovar (2018). Funda com Xavier Paes a editora DERMA, o colectivo REFLUXO e DIES LEXIC, com estreia internacional em Tuí, (2016), e um ano depois em Paris, Haia e Amsterdão. Integra o coletivo artístico internacional “Mycelium” (RU, DEN, IT, EUA e PT) e “MOSCXS” com sede no Porto.

https://cargocollective.com/inestartarugaagua


#4 – Lolo Arziki

Lolo Arziki é jovem cineasta, nasceu em Cabo Verde e cresceu em Portugal. Desenvolve o seu trabalho tratando temas como a sexualidade, a negritude, a inclusão social e a experimentação estética.

Relatos de uma rapariga nada púdica – https://vimeo.com/178958765

Apneia (vídeo art) – https://youtu.be/xjVlxstVsk4


#3 – Samantha Muleca

Muleca XIII é rimadora, compositora e intérprete além de ser pintora e educadora. Natural do Rio de Janeiro, começou sua trajetória no rap e no graffiti em 2006, e desde então é praticante dessas vertentes e ativa em projetos socioculturais através da arteeducação. Há seis anos na Europa, a MC, que costuma atuar em concertos, já dividiu palco com grandes nomes da rima e participou em festivais em Portugal, França e Espanha. Sua marca registrada é a métrica acelerada (fastflow) de alta profundidade sem pecar na qualidade melódica, e sua especialidade é a rima de improviso (freestyle). Integra o coletivo de artistas Comando S.E.L.V.A cuja sigla significa “segue na estrada livre e voa anonimamente”, seu grande lema de vida.

https://www.instagram.com/muleca13/


#2 – kali

in Fanzine Gato

“Entre um pássaro e um macaco, surgem vários animais pelos quais me fui metamorfoseando. Fui mutando na arte e na pedagogia, acreditando sempre que a descoberta parte de uma expressão. E fui chegando, procurando um meio híbrido, pandrogeno em constante transição.”
Música: Pássaro Macaco – Loop Station + electrónica+trompete e voz \ Panelas Depressão – baterista \ Decibélicas – trompete + electrónica \ Orquestra de Sopros e Electrónica – trompete + electrónica
Artes plásticas: #casadasartesdoalgoz #fiadeira #cantodobaú
https://cargocollective.com/kalimacaco/Perfil-Profile

#1 – cataestrófica

A cataestrófica é criadora de seres antropomórficos nas horas livres, pensando a sociedade e o dia-a-dia, através de uma abordagem reivindicativa e humorística, procurando esmiuçar uma miscelânea de temáticas – desde o feminismo, ao veganismo e anticapitalismo.

https://www.instagram.com/cataestrofica/

Diagrafia #7 – Manif online GalpMustFall – 24abr20

Diagrafias

A ideia nas Diagrafias é fazer etnografia de um dia específico, sobre uma comemoração pública ou uma iniciativa privada, a situar no tempo e no espaço. O exercício baseia-se na observação etnográfica num só dia, sem possibilidade de continuar a exploração do mesmo tema noutra ocasião. O resultado formal deve ter um texto no qual se transcreve tudo o que se anotou no caderno, junto com gravações de som ambiente.

A transcrição das notas etnográficas quer-se o mais próximo possível do original, ou seja, com poucas correções formais e factuais. Um dos intuitos é apenas de revelar um olhar etnográfico sobre as ações sociais durante um dia, sem que haja comentários ou aprofundamentos analítico-teóricos. É a revelação da forma mais crua de observações etnográficas, deixando ao leitor a liberdade de interpretar, de querer analisar e questionar.

A nível do método e da forma, as Diagrafias estão próximas do que é feito em etnografia com “descrição densa” (Geertz, 1973), mas também dos documentários de Wiseman, Rouch ou Depardon, e da mais recente escrita da antropóloga Françoise Héritier (2012, 2017). O resultado não tem qualquer pretensão literária, embora nele se revele uma estética muito própria à escrita de notas curtas sobre interações sociais e sobre os contextos nas quais se realizam.

Esta sétima Diagrafia do projeto ArtCitizenship é sobre a manifestação digital contra a Galp, no dia 24 de abril 2020. Foi a primeira manifestação online em Portugal e teve por nome #GalpMustFall, iniciativa co-organizada pela Climáximo e a 2degrees artivism. Também para nós foi a primeira vez que fizemos uma observação etnográfica de algo que acontece exclusivamente no mundo da Web. São passos num método de investigação já bastante trabalhado em ciências sociais – a netnografia.

Estivemos frente aos ecrãs do computador e do telemóvel simultaneamente, mas fisicamente longe de todas as pessoas e situações observadas. Imensa coisa aconteceu. Os olhos e as mãos estiveram muito ocupados, numa ida e volta constante entre a plataforma da manifestação e os lives do Instagram. Havia mapas, icones, slogans, entrevistas, concertos, feeds, muitos imojis de manifestantes… Juntaram-se intervenientes de Moçambique, Cabo Verde, Guiné, Brasil…


Diagrafia #7

Sexta-feira, 24 de abril 2020

De manhã recebo um email no qual está escrito o seguinte:

Foi publicado um novo artigo no nosso site: Como manifestar-se “online”? | How to protest online? 

Hoje (24 de Abril), a partir das 15h00, vamos fazer a primeira manifestação online em Portugal.

Como outras manifestações na vida real, vamos ter um ponto de encontro (sede da Galp em Maputo, Moçambique), um ponto de passagem (surpresa!) e um destino final (também surpresa). Como outras manifestações, vamos ter música e intervenções. Mas, ao contrário às manifestações reais, todas as pessoas de todas as cidades podem participar na mesma manifestação e podemos marchar longas distâncias! 

Então, como é que se faz? Simples:

1) Abre no teu browser https://manif.app/ .

2) Faz zoom-in para o sítio onde queres estar. (para o ponto de encontro, podes simplesmente seguir este link.)

3) Escreve o teu grito onde diz “Slogan” acima.

4) Clica no “Manifest!”

5) Assim aparece o teu bonequinho de manifestante no mapa. Podes agarrá-lo e pô-lo onde quiseres.

6) Vamos marchar, das 15h até às 18h. Para os próximos passos, segue as contas de FacebookInstagram e Twitter do Climáximo.”

Esta manifestação online foi planeada por organizações activistas porque na tarde deste dia 24 de abril acontece a Assembleia Geral Anual dos Accionistas 2020 da Galp.

Há um cartaz feito para este evento:

Embarcado nesta nova aventura de manifestação digital decido estar pronto à hora certa.

15h00

Releio atentamente o email e sigo as indicações. Concentro-me no site da manif.app porque não tenho conta no Twitter. Também somos aconselhados a aceder às páginas Facebook e Instagram da manifestação. Decido ir ao site manif.app no meu computador e ao live do Instagram no meu telemóvel.

Depois de inscrever-me no manif.app e de escolher o slogan no meu cartaz digital, posiciono o meu ícone em forma de boneco caminhante no Terreiro do Paço.

Ligo-me ao Instagram live da 2degrees artivism, na qual estão Diogo Silva (2degrees) e Sinan Eden (Climáximo) em modo pergunta-resposta sobre a iniciativa. É a primeira deste género nas manifestações pelo clima em Portugal.

Falam em “dedos da ação”. Apontam para os dedos das mãos e explicam que cada dedo corresponde a uma ação que se vai realizar hoje: GalpMustFall Live; Compra de ações para estar na reunião de acionistas da Galp; twitterstorm; Manifestação online.

Sinan diz: “– Estamos a fazer uma coisa contra a qual lutámos, o ativismo online”. Debate-se o papel do ativismo online. Conclui-se que é fundamental ligar a outras formas de manifestação.

Movi o meu ícone de manifestante para Maputo, em Moçambique. Fomos aconselhados pelos intervenientes no InstaLive. No mapa, procuro um local onde posicionar o meu manifestante, perto dos outros.

“Somos 500 em maputo. E somos 3os no trend do Twitter em Lisboa”, diz Diogo Silva no InstaLive.

Acaba a entrevista com Sinan Eden, representante do Colectivo Climáximo, coorganizador desta manifestação digital.

Diogo Silva procura a primeira banda a introduzir à manif: os Bergalgo!

Problemas de qualidade, mas há muito humor entretanto. “– Virem a camara ao contrário!”; “– Aí estão eles? Estão a ver-nos?” Confusão. Falhas de contacto…. “– Quem quer falar para introduzir a música?”; “–Eu!” É uma banda solidária com o movimento, já tinham aceitado o convite anterior da Greve Climática.

O feed no Instagram começou calmo, mas já estão 70 pessoas.

15h25

Começa o concerto dos Bergalgo! São 3 músicos. Cordas, percussões e vozes. Letras subversivas. Muitos cortes no som.

“– Palmas de um só”, diz Diogo Silva, já que é o único que podemos ouvir no live, para além da banda.

“Tou a abrir para moche”, escreveu alguém no feed do Instagram.

Conversa-se sobre a banda, sobre a arte, e sobre ser artista em Portugal. Dizem que há demasiada competitividade entre artistas. Faltam coletivos. Apelo a juntar as pessoas.

Mudo de interface e vou espreitar os números e os slogans dos manifestantes.

Em Maputo estão 126 online.

Eis algumas das palavras de ordem que leio nos cartazes dos manifestantes virtuais:

Cai Galp e não te levantes!

Petróleo já era! Galp, 2ª vaga do colonialismo. Il n’y a pas de planete B, Galp doit tomber!

E cai oh Gal e cai oh Gal olé!

Cats against Galp!

Justiça climática e abaixo o neo-colonialismo!

Extractivism must end! 

15h46

Acaba o primeiro concerto.

Em direto no live do Instagram, Diogo Silva tenta aceder à Justiça Ambiental de Moçambique. “– Não dá? Não está acessível? Espero que estejam bem?”; “– Então vou pedir à colega Alice para que me ajude. Vou fazer isto em direto.”

Explicação por Diogo Silva do que é a Justiça Ambiental. Fazem parte da rede Friends of the earth.

Diogo continua à espera do request. “– A ver se os aceito. Se não der, mandamos abaixo e depois mandamos acima!” Risos.

15h49

O live cortou… e voltou.

Somos informados que o # no Twitter está em 2º lugar em Lisboa e em e 4º lugar a nível nacional. “– #GalpMustFall estamos muito bem!”

O nosso host avisa que: “– Por volta das 16h vamos ter de passar de Maputo a Sines.”

Entretanto chegou o representante da Justiça Ambiental, diretos de Maputo. Falhas, mas estão aqui. Já se ouvem. “– Estamos em direto com Moçambique. Vive-se tudo em direto. Obrigado à Alice em modo assistente de produção”, diz o host.

Pergunta resposta. O que é a Justiça Ambiental? Estão juntos há mais de 20 anos. Fala-nos das realidades em Moçambique, nomeadamente da corrupção. Enquanto o interlocutor fala de Moçambique, Diogo Silva reage com as mãos, mas sem fazer barulho, como nas assembleias ao vivo (mãos no ar para simular palmas…)

16h00

Estão 31 pessoas no direto da @2degrees artivism.

146 manifestantes em Maputo.

Leio os comentários das pessoas sobre o que diz o representante da Justiça Ambiental, em direto no feed do InstaLive:

carolinabsacoto: obrigado pelo vosso trabalho;

joaohomemdopovo: Que inspiração

tiny_vclau: Wow

luis_nunesdasilva: Urge furar o cerco de silêncio em torno da Galp e seus negócios insustentáveis!

carolinasalgueiropereira:

Com a Justiça Ambiental de Maputo, conversa-se sobre o slogan da Galp, sobre a sua imagem green… mas qual a realidade da Galp?

Volto ao ecrã do computador, no qual posso ver o mapa mundial dos ativistas digitais. Eu estou a vermelho lá em baixo, em Maputo. Noto que há alguns manifestantes em pleno oceano Atlântico. Os slogans dos seus cartazes virtuais dizem:

meurs (morrendo)

je me noie (estou a afogar-me)

we are not in the BOAT

Foda-se a Galp.

16h09

Somos 155 em Maputo.

Há 75 em Portugal.

São 314 na Bélgica.

Acaba a entrevista ao representante de Justiça Ambiental.

O host pede para nos movermos até Sines.

16h14

O live no Instagram mudou. Diogo Silva, o host, pediu-nos para entrar no live de @GreveClimáticaEstudantil

Estamos em direto com a nova host, Andreia Galvão, que convidou o artista Moçambicano – TRKZ.

Dificuldade em manter a rede.

Sendo um live aberto a todos, há todo o tipo de comentários. Ex:  antonio_gil_de_almeida: voces sao mais vandalos que apoiantes de lenine.

Andreia Galvão começa a entrevista sobre como TRKZ entrou no mundo da arte. Quis ser cantor, dançarino, como forma de se expressar… e também como terapia… “– Salvou a minha vida!”

Discutem a situação ambiental na Província de Cabo Delgado (nordeste de Moçambique)… tem havido informação a circular desde setembro 2019.

Somos neste momento 108 em Portugal. São 350 na Bélgica.

Vamos passar para a parte musical. “– Diz às pessoas qual o teu arroba!” = @__trkz

Escuto o artista, mas há idas e voltas, mudanças de arrobas, mudanças de localização de manifs… problemas técnicos.

Estão 16 pessoas a ver o concerto.

16h37

No canto superior direito do écran de computador vejo que estão 628 pessoas a manifestar-se online na manif.app

TRKZ toca calimba e canta. Passa para a guitarra, tranquilamente.

Comentários no feed:

sobrio258: Mano espero apanhar um pouco de rap too

irayoeywa: Aquárioooooooooo 

sereialice_Está a ser lindo

sereialice_Mas vamos de ter de entrar agora de novo no insta @GreveClimaticaEstudantil para conseguirmos cumprir o programa. Quando este concerto maravilhoso acabar venham lá ter! 🙂

Ainda não acabou o concerto, mas no meu telemóvel vou para @GreveClimaticaEstudantil

A host explica a importância de ouvir artistas de países onde o colonialismo português acabou fisicamente mas continua economicamente.

Passamos para outra artísta: Nitry, rapper de Cabo Verde.

Nitry preparou um décor. Parece ter estrelas na parede e bola de luzes coloridas a circular.

Nitry é estudante. “– É preciso ter conhecimento”. Explica como os seus estudos a ajudam a ser melhor rapper.

Vamos ouvir o seu primeiro som!

Começa a batida… Rima em crioulo.

16h53

121 manifestantes em Portugal.

46 pessoas assistem ao live de Nitry. “– Antes de abrir a boca, tenta abrir a mente. Pessoal todo a seguir a pagina da Greve!”

No feed:

nellymana_

2degreesartivism: A dar TUDÓOOO

abelfrodrigues: alguém dê o mundo a ela

Discute-se a Galp em Cabo Verde. E como fazer a mudança sendo artísta. “– O artísta tem um poder nas mãos, proximidade com as pessoas”

644 manifestantes pelo mundo do manif.app

No feed:

alv_im: #DigitalStrike #DefendTheDefenders vamboraaa

Segunda música: inspirada numa mulher ativista, a Titina Silá, que lutou pela independência de Cabo Verde e da Guiné. “– Corre atrás dos teus sonhos sem olhares para trás”. “– Vou meter aqui um play”. Começa o rap.

No feed:

mynameisronny_Foi para isto que eu acordei hoje

efuru_moon: deus t ma mi, e se deus t ma mi ktm ngm na nha camin

pel_xkura:

clara_pestanalf:

48 pessoas a assistir ao live, muitas reações ao vivo.

Artísta responde: “– Obrigado ao pessoal que está a comentar. Uau. Verdes!!”

No computador, tiro o meu ícone de manifestante de Maputo e subo até Sines.

Volto a Nitry no Instalive do meu telemóvel.

“– Procuro um mundo mais sustentável”, diz Nitry.

Começa 3º tema: a dançar!

Enquanto faz o seu rap em creolo, Nitry também fala em português com mensagens de apoio aos ativistas.

No feed:

pestinha_varelah: Lebantaaa

smartie_4444: Obrigada Nitry!!

17h14

Somos convidados a sair do arroba da Greve Climática para voltar ao live de @2degreesartivism.

Estão 12 pessoas neste live. Espera-se um pouco. Convite enviado pelo host à @GreveClimática.

Novidades: somos informados que acabou a assembleia da Galp, “– Aprovaram tudo o que é distribuição de dividendos…”

Vamos ter mais uma artísta: Djucu, atriz e performer.

Somos informados que Inês Teles, membro da Climáximo, esteve na sede da Galp.

Estamos agora com Djucu, guineense que estudou no Teatro Experimental de Cascais.

27 pessoas no live.

“– Porque aceitaste o nosso convite?” “– Para evoluir!”, responde Djucu.

Vai haver uma performance.

Discute-se arte e de que forma pode servir nas lutas ativistas.

No feed:

balbinoedina: você merece tudo de bom milha querida Deus abençoe você

a_galvona: Bué bonito <3

fehbalbino: Grande atris e pessoa amooo

665 manifestantes pelo mundo, 186 dos quais estão visíveis, informa o computador no manif.app.

Falam sobre o que falta na Guiné, e a relação com as artes.

No feed: carlatudora:

17h32

Vamos até ao Brasil ter com o movimento 350brasil (valor correspondente ao limite planetário de carbono na atmosfera)

20 pessoas no live.

“– O que é a 350? Quando se forma?”…

Representante que está no live explica que trabalha com toda a América Latina.

Explicação de 3 conceitos chave do ativismo climático, dos quais – combustíveis fósseis. E qual o impacto da Galp no Brasil?

No feed: caioalencarrr: Massa o conhecimento

Perigos da exploração petrolífera da Galp nas costas do Brasil depois de ter sido leiloada pelo Presidente Lula da Silva.

17h54

Final da conversa, 21 pessoas no live.

Temos a presença virtual de Inês Teles, membro do Colectivo Climáximo, que esteve na Assembleia Geral Anual da Galp, em Lisboa. Diogo Silva pergunta: “– Tu que estiveste no “dedo de dentro” na assembleia (risos), o que aconteceu?

Estão 25 pessoas no live a ouvir o feedback da ativista. Espalhados pelo mundo, continuam a haver cerca de 650 manifestantes online.

18h07

Faz-se um WrapUp progressivo da manifestação virtual.

Final da manifestação. Decido deixar o meu ícone de manifestante durante mais algumas horas na plataforma manif.app que está aberta no meu computador. Os InstaLives terminam com um adeus coletivo. Sorrisos dos hosts e feed cheio de comentários.

É desligado o InstaLive da 2degrees artivism e assim termina oficialmente a manifestação #GalpMustFall.


Diagrafia #7

Manifestação online #GalpMustFall

Projeto ArtCitizenship

Alix Didier Sarrouy – CICS.NOVA

Abril2020

Diagrafia #6 – Companhia Hotel Europa – Lx, 15abr2020

Diagrafias

A ideia nas Diagrafias é fazer etnografia de um dia específico, sobre uma comemoração pública ou uma iniciativa privada, a situar no tempo e no espaço. O exercício baseia-se na observação etnográfica num só dia, sem possibilidade de continuar a exploração do mesmo tema noutra ocasião. O resultado formal deve ter um texto no qual se transcreve tudo o que se anotou no caderno, junto com gravações de som ambiente.

A transcrição das notas etnográficas quer-se o mais próximo possível do original, ou seja, com poucas correções formais e factuais. Um dos intuitos é apenas de revelar um olhar etnográfico sobre as ações sociais durante um dia, sem que haja comentários ou aprofundamentos analítico-teóricos. É a revelação da forma mais crua de observações etnográficas, deixando ao leitor a liberdade de interpretar, de querer analisar e questionar.

A nível do método e da forma, as Diagrafias estão próximas do que é feito em etnografia com “descrição densa” (Geertz, 1973), mas também dos documentários de Wiseman, Rouch ou Depardon, e da mais recente escrita da antropóloga Françoise Héritier (2012, 2017). O resultado não tem qualquer pretensão literária, embora nele se revele uma estética muito própria à escrita de notas curtas sobre interações sociais e sobre os contextos nas quais se realizam.

Esta sexta Diagrafia do projeto ArtCitizenship é sobre um ensaio da Companhia Hotel Europa, no Teatro Thalia, dia 15 de Abril 2020. Para as comemorações do 25 de Abril, e em pleno estado de emergência devido ao COVID-19, preparava-se um espectáculo sobre a luta contra o fascismo em tempos de ditadura portuguesa.

Propomos que durante a leitura da observação etnográfica oiça o som com auscultadores.


Diagrafia #6

(pre)texto

Esta diagrafia da companhia Hotel Europa em processo de criação e de ensaio é particular porque o espetáculo está ele próprio baseado em recolhas etnográficas. Consiste num vasto conjunto de entrevistas, com tempo e profundidade, feitas a pessoas que participaram na luta contra a ditadura em Portugal. São, na sua maioria, pessoas anónimas. Há histórias heroicas, a diferentes escalas, em vários domínios e múltiplas ocasiões. Há testemunhos da proximidade humana, da sua sensibilidade, do poder da coragem e da devoção. Há histórias com audácia, aquela que ficou no segredo do momento, que durou segundos, que consistiu num olhar, num sinal com a mão, num abraço proibido na calçada, ou num improviso instintivo que salva a pele.

Ao escutar o material destas entrevistas feitas por André Amálio, codiretor, encenador e intérprete da companhia Hotel Europa, apercebemo-nos que a arte da entrevista, da conversa, do estabelecimento de confiança, do deixar falar e saber ouvir, é conseguida de muitas formas, e que nós, cientistas sociais, temos a aprender com os artistas que dominam estas ferramentas à sua maneira.

Outro ponto de provocação consiste na forma como os artistas utilizam a matéria bruta e sensível das entrevistas, para depois transmitir o seu sumo a espectadores variados, por via dos palcos das artes do espetáculo. A comunicação, a transposição e a reprodução, como capacidades às quais o mundo académico não deveria escapar quando quer atingir públicos fora do seu círculo. O teatro documental de Hotel Europa consegue tudo isso, mediando a voz e o corpo dos entrevistados que ganharam confiança ou que sentiram a necessidade urgente de se exprimir sobre temas tão profundamente marcantes, mas por vezes refundidos. A importância do testemunho, aquele que se liberta do possível peso da memória, é fundamental, nomeadamente para os que não viveram em tempos de ditadura, de polícias secretas, de moral castradora, em 40 anos de confinamento físico e intelectual.


Quarta-feira, 15 de abril 2020

(clikar no play para ouvir o som ambiente enquanto lê o texto)

9h00 da manhã

Apanho boleia de Joana Guerra (violoncelista, cantora, performer) até ao local de ensaio da companhia Hotel Europa – o Teatro Thalia, nas Laranjeiras, Lisboa.

Joana explica, “– Não tenho aqui o meu disco dos ASIMOV com o qual costumo começar as manhãs, por isso vou pôr um CD do Lourenço Crespo que me anima.” As estradas estão vazias, nunca foi tão fluido entrar em Lisboa a estas horas. “– Mas alguns condutores aproveitam-se para conduzir muito mal!”, alerta Joana.

Hoje é o terceiro dia de ensaios para um espetáculo da companhia Hotel Europa, encomendado pelo gabinete do Primeiro Ministro, sob conselho e curadoria dxs diretorxs dos quatro Teatros Nacionais de Portugal. É uma proposta peculiar, surge na urgência do contexto COVID-19, implicando a filmagem do espetáculo para que seja transmitido na televisão dia 25 de abril.

Neste período de confinamento obrigatório, em pleno estado de emergência, Joana admite o prazer que tem em poder sair de casa e passear de carro, tudo lhe parece mais intenso: “– O verde dos campos à beira da autoestrada, a velocidade das nuvens ao vento, o betão cinzento da cidade.” Há três dias que espera ser parada pela policia e mostrar a “carta convite” que tem do gabinete do Primeiro Ministro (PM). Há expectativa e gargalhadas neste velho VW Polo a caminho do Teatro Thalia.

9h50 – Teatro Thalia, Laranjeiras, Lisboa

Ao estacionar o carro no parking do Teatro, cruzamos a produtora. Tem uma máscara posta. Levantam-se os braços para cumprimentar e adivinha-se um sorriso graças ao prolongamento deste até aos olhos.

As grandes portas do Teatro são abertas com a manga da camisola esticada até à mão. Entramos, sou apresentado às pessoas que não conheço. Saudações distantes. Há que tirar os sapatos. É um espaço muito bonito, um edifício histórico, completamente restaurado mas mantendo as marcas do tempo. O pé direito deve ter uns 30 metros. O “palco” central deve ter cerca de 50 m2. A iluminação é subtil, evidenciando as paredes centenárias.

Os artistas vão chegando. Há marcas dos ensaios nos dois dias anteriores: mesas cheias de material; cadeiras espalhadas; fichas elétricas esticadas; e uma zona dedicada às duas crianças que acompanham o processo – filhos do casal que dirige a companhia Hotel Europa e que encena este espetáculo: André Amálio e Tereza Havlíčková.

André propõe começar pelos figurinos. Trouxeram propostas de casa. Cada canto serve de lugar improvisado para mudar de roupa. Enquanto isso a bebé e o irmão estão entretidos na confortável zona que lhes é reservada. O irmão é muito atencioso.

Cada um desfila o seu figurino. André está de fato, camisa branca e agora de bebé ao colo enquanto comenta o que lhe mostram os performers.

A produtora pede mais duas mesas ao técnico do Teatro. Por gentileza, uma delas é para mim.

É tirada uma fotografia de todos em linha com os seus figurinos.

O irmão dá voltas à sala imitando um cavalinho enquanto o pai canta, “– A correr, cha la la”.

Surge a questão da maquilhagem. O que fazer para as gravações de vídeo? Quem tem jeito e material?

Tereza vai amamentar a sua bebé. André propõe que os performers usem este momento para reverem os seus textos e coreografias. Cada um vai para um canto improvisado e daí começa a caminhar de texto na mão. São 6 performers no total. Cheila Lima, está de costas, concentrada, protegida pela sua grande afro.

Passam 20 minutos. Começa o aquecimento liderado por Tereza. Intenso e preciso, com muitos alongamentos, inspirações e expirações profundas. “– Abrir os braços, abrir a boca. Deixar cair os braços e deixar sair o ar todo. Torcer o torax. Torcer a anca. Tornozelos. Manter equilíbrio numa perna. Confortable pain.” O pequeno irmão imita os adultos em aquecimento.

A bebé acorda, mas o irmão corre até ela para reconfortá-la e garantir que volta a adormecer. É o que acontece em poucos segundos.

O aquecimento continua. Tereza pede para que se ponham de gatas, mas um dos performers questiona a limpeza bacteriana e virológica do chão. O diretor garante que foi tudo limpo às 6h da manhã.

O aquecimento acaba. Cada um vai lavar as mãos. Cheira a gel desinfetante.

Começa o ensaio.

Pedro Salvador está à guitarra amplificada. “– All together”, coreografia de mãos e braços em loop. Procura de posicionamentos. Confirmações.

Punhos no ar, “– 25 de Abril sempre, fascismo nunca mais!”

Avançam para outra parte do espetáculo que precisa de mais afinações.

De máscara na boca, de luvas azuis e desinfectante em spray, passam cravos de mão em mão. Mil pequenos detalhes são discutidos e pensados. Posição, forma de passar a flor, quantidades, velocidade, intenção, música, ritmo…

Tempos de pausa, tempos de procura. Mais questões técnicas surgem, nomeadamente no computador usado para transferir gravações a telemóveis com auscultadores. Tempo demorado…calma. Preenchimento.

Estão todos descalços, de meias. Alguns sentem frio no chão de betão. Discute-se se devem pôr álcool nas solas dos sapatos para calçá-los.

Estão agora 3 performers em palco – Cheila Lima, Ricardo Machado e Pedro Salvador. Duas delas têm grandes auscultadores pretos nos quais ouvem gravações das pessoas entrevistadas por André. Vão declamando o que ouvem.

Ricardo, o bailarino, faz uma improvisação enquanto todos observam. Comentam-se as diferentes partes do que foi feito. Há conversa, há debate, há tomada de decisões.

Pausa para almoço, cada um no seu canto. Dá para aquecer comida em micro-ondas. No hall, junto à entrada, há cadeiras e uma janela grande para a rua deserta, mas na qual se avista uma farmácia aberta. Rimos da distância entre nós durante o almoço. Dá para conversar.

Depois do almoço aproveitamos raios de sol nas escadas à frente do teatro Thalia. Há muito vento. Ouvem-se pavões e papagaios porque estamos colados ao jardim zoológico. Muito pó e pólen no ar que reanima alergias. Chega um Lexus de alta cilindrada, do qual sai Manuel Heitor, Ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior. Falando ao telemóvel entra no edifício em frente ao Teatro Thalia.

André motiva a sua trupe, “– Vamos recomeçar malta!”

Pedro pega na guitarra e testa alguns acordes.

Com a filha no porta-bebé ergonómico e de computador na mão, André trabalha em pé. A produtora está sentada ao computador, com várias caixas de email abertas enquanto Joana distribui Halls de mel e limão.

A sala centenária tem cravos espalhados pelo chão. Os performers mudam de roupa novamente. Começam a aquecer e a posicionar-se, reagindo aos inícios de choro da bebé. Alguns reveem os seus textos. Outros ouvem outra vez as entrevistas gravadas e uploadadas nos telemóveis. Cada um caminha para direções diferentes. O chão é frio, alguns estão de ténis que foram previamente desinfetados com álcool.

Ensaiam os seus textos em voz alta. Cruzam-se os passos, cruzam-se as falas. A sala fica cheia de palavras no ar. Tudo a tossir ao mesmo tempo. Risos!

Reiniciam o ensaio de onde acabaram ontem. Começa com Joana e André. Cada um sentado numa cadeira, de auscultadores. Carregam no play ao mesmo tempo. Interagem tal como na entrevista gravada. O André continua com a bebé ao peito que dorme profundamente enquanto ouvimos histórias de clandestinidade em tempos de ditadura.

Acaba a cena, mudança do cenário que necessita de uma mesa grande. Arruma-se tudo o que estava na mesa. Mesa ao centro do palco do Teatro Thalia.

É suposto filmarem na residência oficial do PM. Daí que há mais pedidos que vão sendo feitos à produtora presente: “– Jarras, copos, talheres, uma mesa grande mas que se possa dividir… E será que podemos imprimir aqui?” A produtora sai para telefonar.

Enquanto esperam, todos cruzam os braços nos seus casacos ou pulloveres. Está frio na sala grande.

Joana interpreta uma das entrevistas. Trata-se de uma mulher que foi “apanhada” pela PIDE e embarcada num carro em que os policias tiveram inicios de atos de abuso sexual, mas soube travá-los. Testa-se a possibilidade de acompanhar a declamação com música tocada ao vivo por Joana. Decidem que será sem.

Uma parte das filmagens deste espetáculo será feita na antiga sede da PIDE. Nem todos sabem onde se localiza. Aliás, as filmagens serão em vários locais chave referentes ao tempo da ditadura. A produtora relembra que se há ideias para locais novos é preciso autorizações.

Cheila interpreta um testemunho guineense que faz honras a Amílcar Cabral.

De computador na mão e de bebé ao colo, André contextualiza o espetáculo aos seus artistas.

De auscultadores na cabeça, Tereza interpreta um médico holandês que fez parte da luta anticolonialista e antifascista na Guiné.

Pequena pausa e preparação para ensaio corrido.

Ritmo da guitarra de Pedro. Coreografia dos 5 performers, pulsos levantados, “– 25 de abril sempre, fascismo nunca mais!”

Testemunhos de amor durante a luta contra o fascismo.

André contextualiza novamente o espetáculo, a sua motivação e o seu interesse por estes temas: “– Testemunhos de coragem, entrevistas a pessoas que disseram: nós não pactuamos com isto!”

Mas para iniciar este espetáculo há que começar pelo principio. O rasganço de um voto. “– Não denuncie o meu filho à PIDE!” Muitos heróis sem nome, sem identidade, sem rosto… Por agora não interessa o nome dado à nascença, mas sim o de todas as identidades falsas que tomaram.

Termina o corrido a meio porque são 18h e há que cumprir horários. Planeia-se o dia de amanhã e o inicio das filmagens na sexta-feira. Trocam de roupa. Preocupação com os transportes públicos para voltar a casa, “– Começa agora outra batalha do dia!”, diz uma das performers.” “– Alguém vai ao supermercado hoje?”, “– Preciso de uma coisa.”, “– Não é urgente, mas ontem fiz uma hora de fila e não aguento mais”.

Despedidas distantes. Adeus sem toque, mas com sorrisos.


O resultado estará disponível no dia 25 de abril, a partir das 15h30, nas plataformas online do Governo: no Portal do Governo, República Portuguesa – XXII Governo e Twitter.

Companhia Hotel Europa

Direcção e encenação: André Amálio e Tereza Havlíčková

Interpretes: Cheila Lima; Pedro Salvador; Ricardo Machado; Joana Guerra; Tereza Havlíčková; André Amálio.

Produção: Patrícia Cuan

Diagrafia #6

Ensaio Companhia Hotel Europa

Projeto ArtCitizenship

Alix Didier Sarrouy – CICS.NOVA

Nova rubrica – Destaq’Art

Destaq’Art – Artes da cidadania em destaque

Esta é uma rubrica semanal do ArtCitizenship em que damos visibilidade ao trabalho criativo de autoras e autores que têm colaborado de forma mais próxima connosco. O projecto criativo é destacado na medida em que corresponde a uma forma de exercício de cidadania e de participação política em torno de certas causas sociais.

Destaq’Art – Artes da cidadania em destaque

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Diagrafia #5 – Greve Climática Global – Lisboa, 27set2019

Diagrafias

A ideia nas Diagrafias é fazer etnografia de um dia específico, sobre uma comemoração pública ou uma iniciativa privada, a situar no tempo e no espaço. O exercício baseia-se na observação etnográfica num só dia, sem possibilidade de continuar a exploração do mesmo tema noutra ocasião. O resultado formal deve ter um texto no qual se transcreve tudo o que se anotou no caderno, junto com gravações de som ambiente.

A transcrição das notas etnográficas quer-se o mais próximo possível do original, ou seja, com poucas correções formais e factuais. Um dos intuitos é apenas de revelar um olhar etnográfico sobre as ações sociais durante um dia, sem que haja comentários ou aprofundamentos analítico-teóricos. É a revelação da forma mais crua de observações etnográficas, deixando ao leitor a liberdade de interpretar, de querer analisar e questionar.

A nível do método e da forma, as Diagrafias estão próximas do que é feito em etnografia com “descrição densa” (Geertz, 1973), mas também dos documentários de Wiseman, Rouch ou Depardon, e da mais recente escrita da antropóloga Françoise Héritier (2012, 2017). O resultado não tem qualquer pretensão literária, embora nele se revele uma estética muito própria à escrita de notas curtas sobre interações sociais e sobre os contextos nas quais se realizam.

Esta quinta Diagrafia do projeto ArtCitizenship é sobre a Greve Climática Global em Lisboa, no dia 27 de Setembro 2019. Foi uma semana de manifestações por todo o mundo, e por todo o Portugal nessa sexta-feira. Propomos que durante a leitura da observação etnográfica oiça o som da manifestação com auscultadores.


Diagrafia #5

Greve Climática Global – Lisboa

Sexta-feira, 27 de setembro 2019

14h20 – Chego ao Jardim Roque Gameiro (arquiteto e pintor). Grupo de jovens à volta da árvore centenária para aproveitar a sombra.

Há uma faixa do Sindicato de Estudantes no chão.

Junto à escultura do Homem do Leme está montada uma mesa sobre a qual foram expostos cartazes, pins (Black Resistance, Gay Rainbow, Clima/Planeta, Pride, Black Lives Matter), o Jornal “A Centelha”, e livros para vender (Estado de la Revolución, de Lenin, Manifesto Comunista, de Marx e Engels, Reforma y Revolución, de Rosa Luxemburgo).

Estão presentes alguns adultos.

Bastantes máquinas fotográficas e de filmar. Tripés também.

Várias mães com as suas crianças, uma delas tem o bebé ao colo.

No total parecem-me estar 30 pessoas.

Já se testam megafones.

Junto ao rio Tejo está um grupo de policias com motas e carrinha. Falam do Sporting.

Um homem alto, de chapéu, cabelo branco, barba grande e pintada de verde, com óculos escuros redondos, calções azuis e sandálias, tem um cartaz no qual está escrito “Climate change strikes adults too”. Muitas fotografias lhe são tiradas.

No pequeno muro que circunda a árvore central sentam-se grupos de jovens com mães ou professoras.

Do outro lado, frente à estação de comboios do Cais do Sodré, chegam muitos jovens. Tiram uma animada foto de grupo.

No jardim há uma tabuleta na qual está escrito “Proibido alimentar pombos”.

Chega um grupo de adultos com mantas e uma grande tabuleta triangular: “Sentar em silêncio com a Terra – Ser Terra”.

Cartazes: “My world isn’t fine, what about yours?”, “Mother earth is calling”, “Salvem o clima”.

Chegam dois jovens com colunas de som montadas num carrinho.

Ouvem-se línguas estrangeiras.

“A cara dela é a cara de todos nós”, frase colocada num poster em que Greta Thunberg parece enraivecida atrás de Donald Trump.

Vão chegando grandes grupos de pessoas que marcaram local de encontro noutro lugar.

Há abraços e beijos afetuosos.

Vários jovens têm cabelos multicolores.

É feito um teste à coluna de som.

Aproveita-se o megafone para chamar pelo Rodrigo, “– Onde é que estás?”

Chegam mais adultos que se juntam ao grupo das mantas no chão. Parecem hippies. Sorriem muito. Descalçam-se e sentam-se nas mantas, por baixo da árvore.

Uma senhora faz sucesso com o seu cão preto vestido de uma t-shirt branca na qual está escrito: “Não há planeta B. Patuda pelo planeta”.

Num dos bancos do jardim estão duas idosas. São estrangeiras e tentam tirar uma selfie. Uma jovem portuguesa propõe a sua ajuda para tirar uma fotografia com o telemóvel. As duas senhoras comentam: “Oh, they are sweet!”

Fazem-se muitas fotografias de grupo.

Em pé está um senhor estrangeiro, de fato e gravata que me parecem caros, com óculos Persal do modelo Steve McQueen, sapato preto engraxado. Tem uma tabuleta de madeira na qual está gravado: “On strike for the climate”. Deve ter por volta de 45 anos, com um ar de Pierce Brosnan ou de agente do Matrix. Dando a volta à personagem noto que a tabuleta de madeira vem do tampo de uma caixa de vinhos do Douro, CARM Maria de Lourdes.

Cartazes: “Why do you bully me?”, “Save the turtles”, “Greve climática global em autodefesa”, “A Terra esgotou a sua paciência e nós também”, “Neste verão não foram só os gelados que derreteram”, “Make love, not toxic haze”, “Make earth great again”.

14h56 – Estão agora cerca de 300 pessoas. Ouve-se o Zeca Afonso nas colunas de som: “O que faz falta…”

As faixas estão alinhadas no chão. Seguem a ordem do cortejo a vir: “Catástrofe iminente, ação urgente”, “Climaximo”…

Um dos altifalantes não para de fazer feedback.

Canta-se uma nova versão de António Variações, “Se o Governo não tem juízo…”

Um senhor de idade passa pela multidão com sacos do Pingo Doce pesados: “– Quem quer água?”. Vende cerveja também. “– Olhem que no Rossio será mais caro!”

Enquanto alguns jovens líderes se organizam e tomam a palavra, muitos jornalistas colocam-se entre as faixas estendidas no chão. Fotos e filmagens. Alguns têm microfones nas mãos. Grita-se “Power to the people!”. Canta-se “Oh Terra txau txau txau…”.

Rapaz com cerca de 5 anos tem uma cartaz: “Denial is not a policy”.

O grupo dos adultos sentados continua a aumentar. Estão em silêncio no meio da multidão agitada. Tem um forte impacto simbólico.

Há jovens com megafone na mão que passam no meio do público aos pulos e gritam palavras de ordem.

Nos canteiros de relva estão grupos de crianças a lanchar. Sentam-se por cima dos cartazes. Os pais, dos quais alguns são artistas reconhecidos de Lisboa, distribuem a comida. Cada criança tem uma máscara de respiração, daquelas simples, que se vendem nas farmácias.

Ouvem-se gritos a pedir silêncio.

15h20 – Devem estar cerca de 500 pessoas no largo, em torno da escultura do Homem do Leme. As pessoas procuram um lugar à sombra neste dia de sol quente e céu azul.

15h21 – Observando melhor, penso que devem estar cerca de 1000 pessoas até à frente da Estação do Cais do Sodré.

O senhor dos sacos grita “– Olhá cerveja!”

Há uma comitiva do PSD um pouco à margem, junto à rotunda. Estão de cor de laranja e têm vistosas bandeiras do seu partido montadas às costas. Um pouco à frente, o PS também está representado. Tem uma faixa a dizer “Socialismo ambiental”. Entretanto a comitiva do PSD mete-se em fila indiana para ultrapassar o PS.

Ao longe vejo muita gente a chegar do metro e do comboio.

Há um grupo de homens com t-shirts brancas nas quais está escrito “Ligue-se @ nós”. São bancários que se dizem preocupados com o clima.

Há tantos cartazes neste grande grupo de pessoas. Tapam-se uns aos outros. Parecem lutar para serem vistos. As palavras de ordem também parecem confrontar-se, procurando ser ouvidas por todos.

Cartazes: “How dare you?”, “Respect your mother”, “Não ao furo, sim ao furo”, “Daqui a pouco vai haver tanto CO2 no ar que eu já não vou precisar de ganza para a moca”.

15h35 – Começa o cortejo. A multidão atravessa a praça do Cais do Sodré e dirige-se para a Rua do Arsenal. Uma senhora é ajudada a passar o seu carrinho de bebé por cima do pequeno muro. Um casal de idosos tenta passar pelo meio da multidão. Têm sorrisos nas caras e bengalas nas mãos.

Na Rua do Arsenal há pessoas que se metem à janelas dos prédios.

A multidão grita e assobia.

Os fotógrafos posicionam-se por cima das caixas de electricidade junto aos prédios.

A meio da rua, a multidão é convidada a baixar-se e a pôr-se de joelhos no chão. Levantam-se ao ritmo das palavras de ordem e gritam.

Duas jovens usam máscaras com caras de leão. Levantam um cartaz que defende a espécie.

Observo lutas de espaço entre partidos, entre fotógrafos, entre cartazes.

As pessoas na varandas olham curiosamente. Alguns fazem sinais de adeus.

Já na Rua do Ouro passamos por vários prédios em obras. A estrutura metálica que os protege serve de percussão. Muitos manifestantes batem nelas. Ao primeiro andar, de um buraco na rede envolvente, surge um senhor das obras cheio de pó. Faltam-lhe dentes da frente. Sorri animadamente e faz sinal de ok com a mão direita.

Cartazes: “It’s so bad that even introverts came”, “If you breath air you should be here”, “Planeta, amigo, o povo está contigo”, “Exploração de gás, Bajouca diz não”.

Humor, sentir, rir, entreajuda, olhar, caminhar, ajoelhar, levantar, braços, voz.

A melhor vista desta marcha deve ser do elevador de Santa Justa. Nas escadas e lá em cima estão muitos turistas a filmar com telemóveis nas mãos.

16h27 – Chegada ao Rossio.

Os pais que levam aos ombros as crianças com cartazes têm muito sucesso junto dos fotógrafos.

A frente da marcha dá uma volta à praça do Rossio.

Uma senhora resmunga porque muitos cartazes e muitas palavras de ordem são em inglês.

Forma-se um grupo junto à estátua central, do lado do Teatro Dona Maria II. Há faixas e cartazes no chão.

Uma criança com cerca de 8 anos segura um cartaz: “Se o planeta morre nós também”.

As crianças adoram cada vez que a multidão grita. Os cães não.

Cerca de 50 pombos voam dando a volta à praça por cima da multidão. Pousam na estátua central.

Enquanto isto, a marcha continua a chegar. Ainda há muita gente na Rua do Ouro. Uma ambulância aos berros tenta penetrar a multidão para dar a volta à praça.

Cartazes: “We are skipping a lesson to teach you one”, “Qual é o verde que vê?”.

Os partidos políticos vêm no fim: PSD, PS, VOLT, MAS.org, Bloco de Esquerda, Sindicato de Professores, Zero. Uma das lideres da comitiva do PSD é entrevistada durante a sua chegada ao Rossio e provoca a paragem de toda a cauda da marcha. Há palavras de protesto de alguns que assistem à cena. “– Hipocrisia”, grita um jovem.

Ao centro, junto à estátua, vão acontecendo os discursos das pessoas que se inscreveram. Há palavras fortes, a multidão que consegue ouvir reage.

Os jornalistas aproveitam as pessoas paradas a escutar para tirar fotografias, a elas e aos seus cartazes.

Cartaz: “Vão poluir prá p*** que vos pariu”.

Progressivamente, a multidão dispersa-se para as esplanadas dos cafés, para as ginjinhas, para as paragens dos autocarros e as bocas do metro.

Diagrafia #5

Greve Climática Global – Lisboa

Projeto ArtCitizenship

Alix Didier Sarrouy – CICS.NOVA

Artes da Cidadania em Conversa

“Artes da Cidadania em Conversa” é constituída por pequenos vídeos de entrevistas realizadas a um conjunto de interlocutores(as) para refletir sobre as temáticas da pesquisa.

Houve primeiramente uma longa Conversa com cada interlocutor(a), baseada num guião semiestruturado, na qual se gravou apenas o som para uma análise posterior. No final dessa partilha de saberes responderam a três questões face a uma câmara de filmar.

Interessa-nos a variedade de perfis, de sensibilidades, de discursos e de respostas. As artes, nas suas múltiplas formas de expressão, servem de fio condutor. 

Os novos vídeos serão divulgados uma vez por semana, à segunda-feira, no website do projeto ArtCitizenship. 

#46 – Clara Não (Ilustradora)

#45 – Kali (Artista, Panelas Depressão, passaromacaco)

#44 – Maria Mesquita (Ativista)

#43 – Andreia Coutinho (Ilustradora, ativista curatorial, FACA)

#42 – NËSS (Música, Ativista não-binária e Queer)

#41 – Alex aka plant_boy (Ilustrador)

#40 – Herlander (Músico, Artista)

#39 – Raquel Smith-Cave (CuntRoll Zine, Queer as Fuck, Festival Feminista de Lisboa)

#38 – BLEID (Música, Colectivo MINA)

#37 – Duarte Marques (Músico, Extinction Rebellion)

#36 – Alexa Santos (Assistente social & Feminista interseccional)

#35 – Gil Ubaldo (Activista, Justiça Climática)

#34 – Patrícia Carreira (Academia Cidadã, Encenadora & Realizadora)

#33 – Valentina Vargas (Ser humana & Artivista)

#32 – Maria Giulia Pinheiro (Dramaturga, Poeta, Slammer)

#31 – Bianca de Castro (Estudante & Ativista Climática)

#30 – Boris Nunes & João Desmarques (ATR + dUASsEMIcOLCHEIASiNVERTIDAS)

#29 – Raquel Moreiras (Activista e Estudante de Direito, Greve Climática)

#28 – João Costa (Campanha Linha Vermelha, Academia Cidadã)

#27 – Raquel Lima (Poeta, Arte-educadora e Investigadora de Estudos pós-coloniais)

#26 – Diogo Silva (2degrees artivism, Climáximo)

#25 – Alex Couto (Escritor, Publicitário)

#24 – Daniel Matos (Coreógrafo, Bailarino)

#23 – Carolina Elis (Artivista, Afro-feminista)

#22 – Rodrigo Vaiapraia (Músico, Performer)

#21 – Marianna Louçã (Estudante, Activista Climática)

#20 – Pavel Tavares (Artista audiovisual, Documentarista, Professor)

#19 – Pedro Figueiredo (Co-criador de The Worst Tours Porto)

#18 – Maria Kopke (Escritora, Performer, Cantora)

#17 – Luca Argel (Músico, Poeta)

#16 – Miguel Januário, aka ±MAISMENOS± (Artista)

#15 – Inês Tartaruga Água – Artista plástica

#14 – Melissa Rodrigues – Performer, Arte-educadora, Activista

#13 – Frankão, O Gringo Sou EU (Músico/Produtor)

#12 – Sinan Eden – Activista (Climáximo)

#11 – Gil Dionísio – Músico, Performer, Editor, Escritor

#10 – Surma – Artista

#9 – Rui Eduardo Paes – Crítico musical, Programador, Jornalista, especializado em Jazz e Música Improvisada

#8 – Mia Distonia – Writer, Performer, Musician

#7 – Ana Tica – Produtora Cultural & Realizadora

#6 – Andreia Galvão, Bernardo Alvares, Carmo Pereira

#5 – Maria do Mar – Música, Programadora, Professora

#4 – Rodrigo Gomes, Violeta Alexandre, Valdemar Dória

#3 – Kedy Santos – Artista, Mediador Cultural, Eng. Químico

#2 – Matilde Real, Alexandre Castro, Isabel Simões

#1 – Lila Fadista & João Caçador – Fado Bicha

Diagrafia #4 – Justiça Climática Caldas da Rainha – 24Maio2019

Diagrafias

A ideia nas Diagrafias é fazer etnografia de um dia específico, sobre uma comemoração pública ou uma iniciativa privada, a situar no tempo e no espaço. O exercício baseia-se na observação etnográfica num só dia, sem possibilidade de continuar a exploração do mesmo tema noutra ocasião. O resultado formal deve ter um texto no qual se transcreve tudo o que se anotou no caderno, junto com gravações de som ambiente.

A transcrição das notas etnográficas quer-se o mais próximo possível do original, ou seja, com poucas correções formais e factuais. Um dos intuitos é apenas de revelar um olhar etnográfico sobre as ações sociais durante um dia, sem que haja comentários ou aprofundamentos analítico-teóricos. É a revelação da forma mais crua de observações etnográficas, deixando ao leitor a liberdade de interpretar, de querer analisar e questionar.

A nível do método e da forma, as Diagrafias estão próximas do que é feito em etnografia com “descrição densa” (Geertz, 1973), mas também dos documentários de Wiseman, Rouch ou Depardon, e da mais recente escrita da antropóloga Françoise Héritier (2012, 2017). O resultado não tem qualquer pretensão literária, embora nele se revele uma estética muito própria à escrita de notas curtas sobre interações sociais e sobre os contextos nas quais se realizam.

Esta quarta Diagrafia do projeto ArtCitizenship foi feita sobre a manifestação da juventude das Caldas da Rainha que participou numa greve escolar a propósito da Justiça Climática, dia 24 de Maio 2019. A iniciativa envolveu cidades de todo o mundo através do apelo iniciado por Greta Thunberg, jovem ativista da Suécia. Propomos que durante a leitura da observação etnográfica oiça o som da manifestação com auscultadores.


Diagrafia #4

Manifestação pela Justiça Climática

Greve escolar por parte da juventude nas Caldas da Rainha

Sexta-feira, 24 de maio 2019

10h19

Frente à Praça de Touros das Caldas da Rainha

Apresento-me a dois dos organizadores, com quem tinha estabelecido contacto por via do Facebook. Enquanto conversamos, um agente da polícia pergunta quem organiza a manifestação. Uma das adolescentes é designada e vai ter com o agente. O polícia veio de bicicleta, está equipado com capacete, calções, pólo azul claro, luvas de ciclismo e um cinto cheio de bolsas. Enquanto fala com a jovem é muito sorridente e lança piadas para descontrair o ambiente. A adolescente não parece estar muito confortável e não sabe como deve reagir. Depois de explicar as regras da manifestação e de dizer que só podem começar a partir das 10h30, o agente da polícia pede desculpa pelo seu jeito descontraído e diz que é uma brincadeira, “– É só para vos testar”. A jovem sorri e volta a grupo.

A esta hora ainda estão poucos jovens presentes, cerca de  30.

Parece-me que as idades vão dos 8-9 aos 17-18 anos.

Uma senhora acompanha os seus dois filhos pré-adolescentes. Já têm os seus cartazes nas mãos.

Na calçada, junto à parede da Praça de Touros, está um monte de cartazes prontos a serem usados. São de cartão, pintados e com slogans coloridos. Alguns têm figuras desenhadas.

A faixa principal já está a ser segurada por um rapaz e por uma rapariga, um em cada ponta. Também já há um pequeno megafone a ser testado.

Um dos organizadores da marcha é baterista. Trouxe três partes da sua bateria: dois timbalões e uma tarola. É fixada uma fita em cada instrumento, para possam ser tocados durante a marcha. O dono pega na tarola e pergunta em voz alta se alguém sabe tocar. Uma amiga diz que sim e é ensinada por ele. Riem-se durante esta partilha.

Outras percussões são testadas.

O resto dos cartazes que foram feitos previamente é distribuído pelos presentes.

Há mais jovens a juntarem-se ao passeio em frente à Praça de Touros, chegam em grupos.

No chão resta apenas um cartaz. É muito pequeno e nele está escrito “SOS”, com o O substituído pela palma de uma mão.

Há grupos de jovens a chegar de todas as ruas adjacentes.

O passeio enche-se de gente.

O agente da polícia continua sorridente e prestável. Vai ter com os grupos que estão na estrada e pede para que se metam no passeio, “– Pra garantir a vossa segurança”.

Um manifestante troca o seu timbalão pela tarola.

Uma adolescente vai ter com o agente da polícia e explica que encontrou o cão que leva na trela. O agente diz-lhe que deve ir à esquadra com o cão. A jovem parece atenciosa, mas desesperada.

Do outro lado da rua instalam-se alguns curiosos. São sobretudo idosos que olham para o grupo de jovens que se vai formando.

Dentro da massa de gente que se vai formando no passeio da Praça de Touros há pequenos grupos em conversa. Há também um grupo mais isolado, parecem ser mais jovens que os outros.

Há adultos presentes. Algumas parecem-me ser as mães dos pré-adolescentes e adolescentes presentes. Outros parecem-me ser professores ou membros de partidos e de  associações locais ligadas a causas ambientais e juvenis.

A adolescente que encontrou o cão vem ter comigo. Tendo o meu caderno de campo na mão, ela pergunta-me se sou jornalista e se posso ajudar a divulgar a situação do cão. Encontrou o cão esta manhã na sua escola, a D. João II.

Estão agora presentes cerca de 120 pessoas. Chega mais um grupo, de queixos para cima, à procura dos amigos.

Foi instalada uma coluna de som. Começa a soar o “Grândola vila morena”. Todos acompanham Zeca Afonso. Alguns batem palmas.

Uma das senhoras presentes no meio do grupo filma tudo com o seu telemóvel. Sorri. Alguns jovens fazem-lhe um “Olá!” com a mão direita.

10h47 – O agente da polícia contacta os colegas por telemóvel e informa que ainda está em frente à Praça de Touros. Enquanto isso faz sinal para que grupos de manifestantes saiam da estrada e se metam no passeio.

Zeca Afonso continua a cantar: “Eles comem tudo”.

Uma das organizadoras da manifestação pega no microfone que está ligado à coluna e informa: “– Vão ao Insta da greve para ver a lista das frases (slogans), foi publicada”

Há aqui algumas pessoas que são muito jovens, por volta dos 7 anos de idade. Estão acompanhadas. Também está presente uma mãe com bebé ao colo.

Um jovem tem o seu skate (longboard) à mão.

Mochilas Eastpak às costas, de forma muito laça.

A maioria dos presentes está de calças de ganga e tem ténis brancos (muitos da Adidas).

Houve-se Rap português numa pequena coluna portátil.

10h55 –Trânsito parado. Começa a manifestação. A tarola lança a marcha.

A massa de jovens avança rapidamente e desce a rua da frente. Ocupam a largura toda. Uma senhora de idade está em contramão e tem dificuldade em avançar no meio da multidão.

É uma rua com bastante comércio. Os trabalhadores e os clientes vão até à portas de entrada para assistir à manifestação. Há olhares de curiosidade e há sorrisos. Alguns parecem demorar mais tempo para perceber a razão desta manifestação.

“O poder das pessoas é maior que as pessoas de poder” (frases dos posters)

Climatic justice now

“Já não há tempo para pensar, só acionar”

It’s time

“Oh Costa, limpa a costa”

“Se o clima fosse um banco, já estava salvo”

“O clima está mudando mais rápido que as ações”

“É mais fácil imaginar o fim do mundo, que o fim do capitalismo”

“Eu mereço um futuro”

Há quatro megafones e três percussões a serem utilizados.

“Nunca se é demasiado pequeno para se fazer a diferença”

“Para quê ir à escola se não vamos ter futuro?”

“O planeta é só um”

“Não há planeta B”

Message in the bottle

“Penso, logo protesto”

A senhora do bebé ao colo marcha no fim da manifestação.

Durante a marcha, um pequeno grupo chateia os que estão à sua frente batendo nas suas cabeças com os cartazes.

11h16 – Chegada à praça onde se vende fruta e legumes. A marcha contorna as bancadas.

Os presentes ficam a olhar com curiosidade. Parece-me haver caras de orgulho e felicidade.

Dão a volta à praça toda e entram numa das ruas pedonais que tem mais comércio.

Aí, fazem um sitting frente à livraria Parnaso: todos se sentam no chão e levantam-se progressivamente ao ritmo da tarola enquanto cantam; ao estarem novamente de pé saltam e gritam de braços no ar.

Help me

Há sempre gente à porta das lojas a observar o que se passa.

Um guitarrista que normalmente toca nesta rua é obrigado a parar e a “refugiar-se” no passeio de uma das lojas. Está sentado nesse passeio, de guitarra na mão e acompanha o ritmo da manifestação batendo com a mão direita no corpo da guitarra.

Ao megafone ouve-se: “– E com a poluição o que é que acontece?”, “– Andamos para trás”. Todo o grupo de manifestantes anda para trás enquanto responde.

Há humor, há risos, há brincadeira (faz-me pensar em todos os escritos sobre a noção de “play” nas manifestações).

E de repente, os megafones convocam uma corrida para a frente. Correm a rir e a gritar. Tem um efeito forte.

“# faz pelo clima”

Novo sitting. Todos sentados no chão.

“– O que é que foi feito desde o 15 de março?” (megafones)

“– Nada!” (manifestantes em conjunto)

“– Nada mudou” (repetem uma dezena de vezes enquanto se levantam progressivamente)

“– Sem políticas ambientais, o que é que acontece?”, “– Voltamos para trás, voltamos para trás” (andam para trás enquanto gritam a resposta).

E, de repente, uma vez mais, todos correm para a frente.

O polícia que estava a controlar os carros é completamente ultrapassado pelo movimento incontrolável da multidão. Há um certo perigo envolvido devido a um carro que vinha nesta direção, mas o condutor percebeu a situação e travou calmamente. A multidão passa pelo agente da polícia enquanto este ainda tem os braços abertos em sinal de espanto.

Chegamos à praça onde se encontra a Câmara Municipal de Caldas da Rainha.

“– O que aconteceu depois do 15 de março!?”, “– Nada” (respondem todos sentados nas escadas da Câmara). Começa o sinal dado pela tarola e todos se levantam seguindo o seu ritmo em aceleramento.

“– O povo unido jamais será vencido” x 5

A escadaria da Câmara Municipal das Caldas da Rainha está completamente cheia. Do seu lado esquerdo está uma escultura de Zé Povinho (sem fazer o manguito), protegida por uma estrutura de vidro transparente.

“– Oiçam a nossa voz, o futuro somos nós!”

“O capitalismo não é verde”

Warning – Warming

Nas janelas do 1º e 2º andar vêem-se funcionárias da Câmara a filmar o que se passa cá em baixo.

“Justiça climática já”

Novo sitting nas escadas da Câmara Municipal.

Lá em cima juntam-se mais funcionárias às janelas. São só senhoras.

No cimo da escadaria, uma das organizadoras da manifestação faz um discurso ao microfone. Usa o telemóvel para ler o seu discurso. “– Os mais afetados são aqueles de quem a palavra menos conta”. No final há uma ovação.

O Presidente da Câmara Municipal desceu para acolher os manifestantes: “– Bem vindos à Câmara Municipal”. No seu discurso faz uma balanço da situação municipal, mas rapidamente fala sobre as responsabilidades ao nível nacional e até aos vários níveis internacionais. Isso não cai bem nos ouvidos de alguns dos presentes. Final do discurso com aplausos.

Voltam os slogans.

Organizadores perguntam se alguém quer usar o microfone para discursar.

Começam os discursos individuais. Reclamações porque não se ouve nada com o microfone. Tem de ser bem posto em frente à boca.

Uma das oradoras prefere gritar do que falar ao microfone. Isso cria muito entusiasmo nos manifestantes. Grita o seu discurso com emoção. Várias vezes é obrigada a recuperar o fôlego.

Vários jovens fazem discursos. Aplaudidos ao pegarem no microfone. Não me parecem tímidos, os discursos são improvisados, articulados e sentidos.

Nos seus discursos, pegam nas palavras do Presidente da Câmara para contradizê-lo. Explicam que não podemos dizer que a responsabilidade não é nacional. Dão os exemplos do aeroporto no Montijo e dos furos para petróleo e gaz no Alentejo e no Algarve. Também estão contra o argumento internacional do Presidente quando diz que a grande responsabilidade é da China e dos EUA. A responsabilidade começa aqui, “– Em cada um de vocês”, insiste uma das líderes.

Outra das organizadoras da manifestação diz ao microfone que a luta pelo clima também é uma luta de carácter social, pela igualdade de género, pelas minorias, “– Porque o planeta é de todas e de todos!”.

Um dos adultos que acompanhou a marcha toda pede o microfone: “– Peçam aos vossos pais para votar neste domingo para a eleições europeias!”

Começa a tocar o “Grândola vila morena”. Todos cantam. Há punhos no ar.

Progressivamente forma-se um círculo na calçada em frente à escadaria. No centro, na calçada, são depositados todos os cartazes da marcha, com os slogans virados para cima.

Ainda ao microfone:

“– Fim às touradas”

“– Fim à industria animal”

“– Não à carne”

Acaba a manifestação. Ao megafone faz-se um apelo para aqueles que precisam de receber a autorização/comprovativo de participação na manifestação. Cria-se uma grande fila. Ao fim de pouco tempo já não há cópias suficientes. Os organizadores marcam num caderno o número de pessoas em falta, “– Fila única, por favor!”.

Os organizadores da manifestação estão juntos e conversam no cimo da escadaria. Há um adulto com eles. Fala da sua experiência no ativismo ambiental.

12h38 – Os funcionários da Câmara Municipal saem para ir almoçar.

Juntam-se os cartazes e limpa-se o chão.

Um dos percussionistas senta-se no cimo da escadaria. Conversa e descanso.

Dois adultos vão ver os cartazes deixados no chão. Um deles escolheu um cartaz e diz, “– Bué bom!”. No cartaz está escrito: “Oh mar salgado, quanto do teu sal, É plástico de Portugal?”

Há conversas sobre onde almoçar. Os jovens manifestantes dispersam-se em pequenos grupos.

Diagrafia #4

Manifestação Justiça Climática

Juventude das Caldas da Rainha

Projeto ArtCitizenship

Alix Didier Sarrouy – CICS.NOVA

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